Micro-prosas

Descasco batata-doce ouvindo Tom Zé falar. Deixo quieto em algum lugar da memória o que li de manhã sobre o menino negro que a patroa branca levou à morte no Recife. A memoria devolve algumas palavras. Patroa, elevador, nono andar, o nome da mãe do menino. A descrição da cena me deixa nauseada. O Brasil cruel adoece. Patroa, elevador, nono andar, o nome do menino: Miguel. Olho as árvores ao longe. Um pinheiro alto em um terreno vizinho, um pinheiro de Natal que destoa na paisagem. Misturo páprica picante com páprica doce no alho picado. Tom Zé conta como não sabia nada e como começou a saber aos poucos. A infância em Irará, a escola, a loja do pai. Os Sertões na estante. Um dia Tom Zé pega o livro e lê a primeira parte. Muito cheio de detalhes. Continua e chega a parte sobre o homem. Desconfia que tem alguma coisa a ver com ele. Continua e um choro o acomete. Confirma que é sobre ele. E sobre os clientes do seu pai na loja em Irará. Disfarça. Ninguém percebe em casa. Chora de novo. A terceira parte do livro é gibi, e ele torce pelos jagunços. Tom Zé menino. O Brasil de Tom Zé me faz juntar as batatas ao molho e retomar a louça na pia.

***

No final da tarde saio de carro com meu filho. Ele dirige. Tirou a carteira não faz muito tempo. Falamos pouco. Atravessamos o vilarejo e vemos muitos mascarados. A contaminação e as mortes dobraram na região. No som do carro, ouvimos “Meu mundo é hoje, não existe amanhã para mim”. E depois “For once in my life”. Cantarolamos. De repente, eu choro. A notícia de que meu tio morreu hoje de manhã finalmente me atinge. Imagino ele dançando em 1968 “For once in my life”. Imagino ele jovem e alegre. Minha mãe diz que ele era um pouco de esquerda. Depois casou-se com uma linda jovem de uma cidade de origem alemã próxima à cidade portuária em que viveu e morreu. Da varanda da casa deles viam-se navios entrando no rio. Não sei se foi feliz. Olho meu filho dirigindo. Por trás dele um por do sol exuberante. Ele dança com as mãos ao som de um reggae. Me vem à memória uma foto do meu pai e do irmão dele pequenos, sentados da mesma maneira, o maior abraçado ao menor, olhando sorridentes o fotógrafo. Hoje meu pai decidiu ir ao velório. Penso nos velórios por esse país. A tristeza e o desejo de um rito de despedida maiores que o temor de contágio. Já é noite quando chegamos em casa.

Publicado por Consuelo Lins

Consuelo Lins

(ECO/UFRJ) Coordenadora Geral do Projeto

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