Passeio ao Centro: relíquias, ruínas, restos

Quando pequena, nos idos anos 1960, ainda escutava pessoas da minha família dizendo que iam à cidade quando se referiam ao deslocamento até o centro do Rio de Janeiro. Naquele tempo perdurava um resquício de memória do centro do Rio como o local do comércio fino, bares antigos, repartições públicas e edifícios empresariais. Quando, aos dezessete anos, consegui meu primeiro emprego na Rua México, aquela ida à cidade parecia assinalar uma ansiada participação na vida da metrópole. Era uma iniciação naquela pulsação. Ao final do expediente, havia o chope no Amarelinho. Enquanto os corpos permaneciam sentados nas mesinhas de mármore, os olhares viajavam criando uma cama de gato atmosférica de desejos, intrigas e galhofas. Percorria sebos com livros amarelados cultuados por compradores que formavam uma seita de devoção às letras mortas ressuscitadas em leituras. Inventariava as igrejas barrocas com seus polpudos anjos e santos um tanto soturnos quando adornados com perucas de cabelos humanos que jaziam como vegetação morta contra vestimentas de cetim.

Este centro que conheci na minha adolescência há muito tempo havia sido sepultado como capital. Os arquitetos responsáveis pela invenção de Brasília, quimera modernista no Planalto Central, foram sabidamente os cariocas Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Afora a perda do poder político para Brasília e o esvaziamento cosmopolita, o Rio de Janeiro há muito não tinha a força econômica e financeira de São Paulo. Ao longo dos anos, em que pesem os esforços de recuperação do corredor cultural, entre outras iniciativas, o centro foi se deteriorando naquela deprimente decrepitude. Recebeu ímpeto com as controversas reformas do Porto Maravilha e a derrubada da Perimetral, mas isso não alterou seu despovoamento. Entretanto, até recentemente nunca tinha deixado de ser um local de confluência de todas as zonas da cidade.

Desde o início do século XX, com as reformas de Pereira Passos, as pessoas foram sendo expulsas do centro. Sob a picareta demolidora da prefeitura, gente trabalhadora e pobre foi enxotada dos cortiços. Nos anos 1920, para abrigar o espetáculo do Centenário da Independência do Brasil, o morro do Castelo com seus marcos históricos e comunidade popular foi arrasado. Na final da Era Vargas, a Praça Onze, que congregava ritmos, variada gente e vibrantes festividades Afro-brasileiras, foi dilapidada. Com a transferência da capital para Brasília, até mesmo os edifícios icônicos do Estado Novo foram se deteriorando no desleixo do abandono.

Arrebatadora, a paisagem da baía da Guanabara emoldurando o centro parecia esmorecer qualquer construção. Mas becos, igrejas, praças e a diversificada vida de rua foram captadas em pinturas coloniais, aquarelas de Debret, escritos de Manuel Antônio de Almeida, Joaquim Manuel Macedo, Machado de Assis, João do Rio, entre tantos outros. Rubem Fonseca, em lapidar conto dos anos 1990, “A arte de caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro”, faz seu narrador-protagonista Augusto-Epifânio caminhar por um centro implodido onde os escombros das construções se justapõem ao desmanche social de despossuídos, evangélicos, prostitutas e pequenos estafadores. O próprio Augusto-Epifânio escreve um copioso manuscrito intitulado “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro”. Na sua desmedida compilação entram detalhes das ruas, digressões históricas, memórias e nomenclaturas. Augusto abraça as árvores do Campo de Santana e quer revelar as belezas de remanescentes relicários para a prostituta Kelly, que, entediada, buscava distração com as quinquilharias dos camelôs. Mas, se o passado enquanto legado material histórico se arruína em escombros, o passado enquanto cicatriz colonial, exploração humana e miséria social aflora nos corpos negros dos catadores de papéis, desponta na árdua barganha da sobrevivência de miúda gente sem recurso e assombra as faces dos desvalidos possuídos pelo temor de um destino que ameaça. Seguindo as pegadas de tantos flâneurs e narradores, Augusto-Epifânio encontra nas velhas ruas do centro não uma “alma encantadora”, mas uma vida tecida de encontros com estranhos, epifanias efêmeras e memórias.

Durante a pandemia, o centro do Rio de Janeiro tornou-se um local agonizante. Edifícios inteiros de escritórios vazios, restaurantes fechados, praças dilapidadas. As estátuas esquecidas, que em tantos locais estão sendo alvo de disputas políticas, foram deixadas aos pombos e as fontes do século XIX se tornaram mictórios a céu aberto.

Em passeio recente, olhava o monumento a Floriano Peixoto em frente ao Theatro Municipal, uma obra grandiloquente do positivismo pátrio inaugurada em 1910. Em pedra e bronze, a narrativa da saga nacional sob os preceitos comtianos adaptados à historiografia nacional. Grupos escultóricos ao redor do pedestal exemplificam as “três raças” da formação brasileira. Ao lado do indígena livre e altivo, o índio domado pela espada da conquista e posteriormente catequizado. Os negros esculpidos como fortes camponeses libertos. As futuras gerações representadas por crianças de aspecto europeu flutuando num desconcertante limbo de nuvens ou ondas. Coroando o pináculo dessa ode em pedra ao culto do heroico-militar, uma estátua de mulher alçando os braços ao lado de Floriano, este de espada em punho. A estátua de Floriano é acompanhada pelas de Tiradentes, de José Bonifácio e do inevitável Benjamin Constant. Mas, naquela tarde triste de esvaziamento, essa pedagogia escultórica — de retórica tão simplista e retrógada, com sua aposta no progresso, nas hierarquias da evolução e no heroísmo armado — tornou-se outra coisa na decrépita Cinelândia.

A estátua equestre de Dom Pedro I proclamando a independência do Brasil foi inaugurada em 1862 na então Praça da Constituição. Foi a primeira grande escultura a ser encomendada no Brasil durante o império. No alto do pedestal, montado em brioso cavalo, Dom Pedro acena com os papéis da independência. Cercando o pedestal estão os grupos alegóricos que representam grandes rios brasileiros, São Francisco, Madeira, Amazonas e Paraná. Os rios estão metamorfoseados em magníficas estátuas de figuras indígenas e estão cercados de animais de suas respectivas regiões. Mas enquanto Dom Pedro, no topo do pedestal, domina o grupo escultórico, os olhos dos pedestres ficam voltados para as esculturas feitas ao estilo do indianismo romântico do século XIX. O manifesto das nações na mão de Dom Pedro se reduz a um lenço vultoso. Um monumento à independência em que a presença massiva do negro escravizado é obliterada, a sociedade civil desaparece e resta o monarca cercado de flora, fauna e indígenas romantizados. Nessas lacunas tão ruidosas jaz também a ironia involuntária do monumento. Dom Pedro I governa para quem? Oferece a independência a quem?

No entardecer crepuscular da Praça Tiradentes, as estátuas indígenas dos rios assombram como deidades imaginárias de uma natureza agônica. Enquanto os militares autoritários heroicizados no monumento a Floriano Peixoto agora proliferam em reles versão miliciana policialesca, os rios e os indígenas ali alegorizados padecem e morrem na devastação ecológica e humana do Brasil atual.

Já o chafariz ornamental colocado no lugar do Palácio Monroe tornou-se um lixão a céu aberto. Estátuas voluptuosas e belas são agora figuras esquecidas de um chafariz que não jorra água, uma fonte ornamental jogada em cima de um estacionamento com seu pedestal cercado de plásticos fétidos e excrementos. Relicário ruinoso de restos abjetos.

No Passeio Público, o jardim respira, um arquivo vegetal pincelado pela história. Patos brancos navegam prosaicos no laguinho escuro. As estátuas repousam num verde que permanece. Árvores antigas exibem grossas e tortuosas raízes, folhas caídas dão adeus enquanto a cidade ao redor é um cenário de papelão pintado de arranha-céus.

Murais colorem as ruas estreitas perto do Largo de São Francisco. Um coletivo artístico (Epifania Literária) colocou os rostos pintados de um panteão de gente nas fachadas. Não são heróis, heroínas, deidades. Tampouco estão na parede por serem celebridades, embora também sejam isso.

No semicírculo da Praça da Cruz Vermelha, os sobrados carcomidos circundam pessoas jogadas no umbigo da rua. Me lembrei do belo poema de Drummond, “A flor e a náusea”. “Preso à minha classe e a algumas roupas, /vou de branco pela rua cinzenta……Em vão me tento explicar, os muros são surdos./ Sob a pele das palavras há cifras e códigos./ O sol consola os doentes e não os renova./ As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase”.  Desesperançado e entediado, o poeta no seu impasse vê que “uma flor nasceu na rua!/ Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego./ Uma flor ainda desbotada/ ilude a polícia, rompe o asfalto (…) Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde/ e lentamente passo a mão nessa forma insegura”.

Aqui nessa tarde, nada de flor rompendo o asfalto. Nem mesmo a náusea da impotência de não realizar futuros esperançosos. Nada de futuro. Somente o presente pandêmico no centro do Rio de Janeiro. Não me sento no meio-fio da rua perto de gente remexendo o lixo. Mas, olhando as fachadas dolentes de descuido, senti — depois de meses de quarentena, quando o mundo era visto por janelas e telas — que estava num espaço público. Degradado, sujo, abandonado e até um bocado sórdido. Mas era/é um espaço público.

Na quarentena, as cidades com suas densidades, multidões, estridências e estranhamentos foram vistas como cenários de contágio e temor. Para as classes mais abastadas, tornara-se ainda mais urgente o imperativo do nicho ecológico da “casa de campo”. Para as classes médias espremidas entre paredes exíguas e demandas de normatividade sem as garantias da mesma, a cidade ficou ainda mais asfixiante. Para os pobres sem alternativa que tinham que pisar o asfalto no esforço de sobrevivência, a cidade despontou cada vez mais dura. O que é estar-na-cidade quando esta ainda tem um centro, ruas de pedestres, monumentos com cacos de história, gente jogada a esmo, incertezas e pulsações que se renovam na vida? Vida explodida de sensações na rua congestionada: caixas de som, tabuleiros precários de bombons, trocas entre estranhos, olhares fugidios, contatos corporais e epifanias efêmeras. Estar-na-cidade é um ato de entrega. A convivência com outros nas suas materialidades/subjetividades. Esbarrar na carne suja, violenta e pujante da metrópole é, tantas vezes, extenuante e perigoso. Essas experiências também se congelam em imagens. O estar- na -rua pode ser virtualizado. Essa rua também se vivencia com um telefone celular na mão com o qual foram feitas essas amadoras imagens. Mas, em nesgas de instantes, a cidade como máquina do mundo estilhaçado também nos sussurra algo. Ela nos fala dessa moradia estranha que construímos, um mundo ainda-todavia humano.

Caderno de Imagens:

Figura 1. Ministério da Fazenda, Centro, Rio de Janeiro.
Figura 2. Palácio Gustavo Capanema, Centro, Rio de Janeiro.
Figura 3: Monumento ao Marechal Floriano Peixoto, Imagem de indígena catequizada.
Figura 4. Monumento ao Marechal Floriano Peixoto.
Figura 5. Estátuas simbolizando o Rio Amazonas, Praça Tiradentes.
Figura 6. Estátua Dom Pedro I, Praça Tiradentes.
Figura 7. Estátua alegórica do Rio Madeira.
Figura 8. Fonte do antigo Palácio Monroe, Praça Mahatma Ghandi.
Figura 9. Fonte, Praça Mahatma Ghandi.
Figura 10. Fonte, Praça Mahatma Ghandi.
Figura 11. Passeio Público.
Figura 12. Passeio Público.
Figura 13. Passeio Público.
Figura 14. Instagram Epifania Literária.
Figura 15. Painel Epifania Literária.
Figura 16. Instagram Epifania Literária.
Figura 17. Rua do Centro, Rio de Janeiro.
Figura 18. Praça da Cruz Vermelha, Centro, Rio de Janeiro.
Figura 19. Rua do Centro.
Figura 20. Vitrine.

Publicado por Beatriz Jaguaribe

Beatriz Jaguaribe

(ECO/UFRJ) Coordenadora Geral do Projeto

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