Diário de uma pandemia ou muitos meses no décimo andar

Do décimo andar

Um pai constrói uma cabaninha para sua filha na varanda do segundo andar do prédio da lateral. Lençol, luzes amarelas e um colchão inflável, onde a menina dá gargalhadas e cambalhotas enquanto ele trabalha nos ajustes finais. Escuto as risadas das minhas amigas Taissa e Fernanda na cabaninha da nossa infância montada no meu quarto. A menina brinca sozinha e logo enjoa. As luzinhas, no entanto, ficam acesas e mergulho ali nas lembranças de liberdade. Invento as minhas cabaninhas, decoro paredes, lavo roupas à mão, a máquina quebrou. E lavo compras. Nunca existiu máquina de lavar compras. Me adaptei às festas virtuais, às longas ligações. Sozinha como a menina, logo me canso. E os dias vão passando lentamente.

Da mesma janela, observo a incidência dos raios do sol, que mudam de posição. Pela manhã, criam pequenas bolinhas de luz na minha parede azul. Nunca entendi o motivo. E gosto que seja assim. No cair da tarde, os raios refletem no vidro preto-espelhado do gigantesco prédio comercial da frente, na praia de Botafogo. Uma vez fui lá perguntar. São 26 andares, que destoam da altura dos outros edifícios e tapam todo o Pão de Açúcar. Minha vontade é cortá-lo pela metade. Ainda assim, no vão que faz entre ele e o outro edifício, consigo ver um pouco, bem pouco, do mar. Me agarro ali como certa vez agarrei à areia de Itacoatiara, praia onde cresci em Niterói, enquanto uma grande onda me puxava com força para dentro do mar. Esperança em grãos.

Também vejo a rua, já sem movimento. Me pergunto se ela, assim como eu, sente falta das pessoas. Das passadas rápidas e apressadas, das barraquinhas dos camelôs, do gelo dos ambulantes jogado na calçada no fim da noite, da trombada de ombros na saída A do metrô, desculpa!, do tropeço naqueles insuportáveis calombos no asfalto irregular, da vida, do barulho, do imprevisto. Na São Clemente, não se escuta mais buzina nem barulho de motor. O som agora vem dos pássaros e também dos prédios. É a risada da menina na cabaninha, o latido incessante do cachorro, a sequência de espirros vespertinos da vizinha. O gozo.

Oásis arquitetônico

Às 17h, gosto de tomar um café bem forte, sento no braço do sofá rosa, apoiada no parapeito da mesma janela da sala. A vizinha da frente corre. Comprou uma esteira. Vejo um oásis em meio aos prédios, casarão antigo rodeado de árvores. Seria a casa onde Eulálio d’Assumpção[1] passou a infância? Botafogo não virou Manhattan e talvez isso seja bom!

Três andares, três janelões enormes, sacadas em ferro com suportes que fazem desenhos arredondados, toldos rasgados, telhas verdes e um imenso jardim. Testemunho arquitetônico de uma época tão distante e que me faz sorrir. Os distraídos que andam pela Muniz Barreto certamente não reparam. É como se fosse um segredo revelado apenas pra mim, voyeur diária dessa beleza. Penso que uma das janelas pode se abrir a qualquer momento, e que de lá um senhor decadente e rabugento vai me acenar com sua bengala. História secular de inspiração eclética, com traços do Renascimento Francês, que ganhou um puxadinho nos fundos com antena de TV.

Sem poder flanar pela cidade, vago nas alturas do décimo andar. O mesmo olhar atento. Nesse quarteirão em que passado e presente convivem, sacolas plásticas secam no varal do pequeno cortiço, espremido entre o muro do estacionamento do meu prédio e o paredão da Igreja Universal do Reino de Deus. Nunca existiu máquina de lavar compras!

É outro segredo só meu. Oásis não-arquitetônico, mas cheio de vida. Quem passa pela São Clemente também não pode imaginar que aquela portinha branca se abre para esse cortiço de corredor estreito e casas amontoadas, com gatos passeando pelos telhados. Em vão, me esforço para escutar a conversa das duas senhoras que gesticulam enquanto tiram as sacolas plásticas do varal. O papo parece bom. Usam máscara no quintal de casa.

Só dois reais

Trancada em casa é como se minhas memórias ficassem ainda mais vivas. Transito entre elas, resgatando passado, fantasiando futuros. Procuro o descascador de legumes cor de rosa-choque, com suas lâminas afiadas em um suporte de plástico.

Desculpe interromper o silêncio de sua viagem. Descascador de legumes é só dois reais! Também é ralador e fatiador, gritava o vendedor enquanto descascava facilmente uma cenoura. E depois uma abobrinha. Eram poucos passageiros, uns oito. Todos compraram. Sem exceção. Um saquinho de 7 Belo ou de Mendorato não teria feito o mesmo sucesso.

Por onde estaria ele? Termino de descascar as batatas pensando no rapaz. Procuro minha faca de serra da Tramontina, com cabo de madeira e duas bolinhas. Tenho certeza que boa parte das casas cariocas tem uma dessa. Visionário, escolheu o produto certo, criou o discurso perfeito e exemplificou. Foi batata! Com certeza agora perdeu boa parte da freguesia. Escorre uma lágrima. Odeio cortar cebola.

Às 20h30

Todas as noites, impreterivelmente às 20h30, gritamos Fora Bolsonaro. Genocida. Fascista. Assassino. Dezenas de vozes ecoam pelas janelas, num coro de ódio e tristeza pelas milhares de vítimas do coronavírus. Sinto que é o momento do desabafo, de colocar a raiva pra fora. Também de contato, de troca de olhar, de apoio, mesmo que de longe. 

Outros gritam mito. Fora comunista. Vai pra China. Fazem arminha com a mão em direção ao meu prédio, na minha direção. Quase sempre instaura-se um bate-boca geral, que dura cerca de cinco minutos. Os nervos estão à flor da pele. Algumas vezes, pequenos grupos com camisa do Brasil e sem máscara fazem pequenas manifestações em frente ao Consulado da China. Mais gritos ecoam. Xenofóbicos. Fascistas. Racistas. Gado. Fora Bolsonaro. Retrato de um país partido.

Imprevisto

Sinto saudades da fofoca na calçada da casa onde fui criada, em Itaipu. De andar pelas ruas catando manga-espada, de subir no pé de goiaba da casa do lado, do banho de mangueira com meus amigos. Falta vida aqui em Botafogo. Mesmo antes da pandemia, mal conhecia meus vizinhos. Agora, nem o encontro no elevador é mais possível. A regra é clara: apenas membros da mesma casa podem pegar o elevador juntos. Use máscara. Fique em casa. Tenho vontade de usar a água de colônia da Coty que Clarice Lispector usou no dia em que conheceu Olga Borelli. Me encher de Imprevisto. Perfume barato, contou ela, mas que serviu para mostrar que o inesperado também pode acontecer.  Quero ver se alguma coisa boa acontece no meu caminho até a lixeira.   

Domingo de manhã

Pagode na caixa de som, cerveja para gelar e inicio o ritual: aspirador, vassoura, que também é microfone, pano com cera líquida para conservar bem os tacos de madeira. O vizinho de baixo aperta mais um baseado cheiroso. Jorge Aragão pra enxaguar o banheiro. Abro o Instagram e vários amigos seguem ritual parecido. Vídeos de arrumação da casa com pagode e cerveja.  Domingo de faxina é o novo normal.

A feira

Peço um quilo e meio de sobrecoxa desossada. Depois de limpar, o açougueiro coloca tudo num saco plástico e faz um furinho com a faca antes de embrulhar com papel. Parece dia de chuva mas sem chuva. Poucas pessoas, poucos gritos e risadas. Sinto falta da confusão, do carrinho de metal batendo na canela. Numa tentativa de travar um diálogo, pergunto o porquê do furo. Está de máscara, mas sorri com os olhos, gosta da pergunta. Me conta que é para o saco plástico não ficar com ar e, num desabafo, emenda: nem a feira aqui é mais a mesma, as pessoas estão com medo de conversar.

Peço uma dúzia de ovos. Agradeço com palavras, mas também com os olhos, com a certeza de que criamos um vínculo. O vínculo saco plástico furado.

Caminho em direção à minha casa, numa volta mais longa pelos quarteirões. Desde que voltou a ter feira, vou religiosamente toda segunda. Goma de tapioca, queijo meia cura, brócolis, maracujá, água de coco e um pouco de respiro.

Passo na frente de uma antiga casa que tem uma Nossa Senhora pintada em quatro azulejos pregados na diagonal da fachada principal. Sinal de proteção. Lembro do altarzinho feito por meu pai com um São Francisco de Assis esculpido em madeira e colocado na entrada de casa. Antes da pandemia, era comum que pessoas ali parassem para observar e, quem sabe, pedir uma forcinha pro santo. Peço equilíbrio. Os dias no apartamento vão ficando cada vez mais insuportáveis.

Hortência, flor mais linda

Passo manteiga no pão francês dormido e aperto bem na frigideira. Reservo num prato. Jogo o queijo meia cura comprado na feira. Tshhhh. Como eu amo esse barulho! Deixo ficar bem derretido e só então coloco em cima do pão. Quer que eu faça um pãozinho com queijo pra você?, perguntava minha avó logo depois de me acordar. Ela entrava mil vezes no quarto, mexia em sacolas plásticas até eu despertar. Eu ficava irritada. Mas logo depois se oferecia para fazer o pãozinho. Era meu café da manhã preferido. Reproduzo os mesmos passos, tem gostinho de afeto. O dela era melhor.

Comecei a pensar nela com mais frequência desde que eu trouxe suas plantas aqui pra casa. Cuido pacientemente como se um pedacinho dela ainda estivesse vivo. Olhos verdes, cerca de 1,60 de altura, mandona, personalidade forte. Mãe de três filhas. Era a oitava dos quinze irmãos, foi a penúltima a morrer. Seus pais, uma indígena e um tipo que chamo de bandeirante, queriam completar o alfabeto. Ou seria só ele? Ao chegarem no L, pularam pro Z de Zenóbia. Depois seguiram até o N de Nímia, a caçula.

Me olho no mesmo espelho que ficava pendurado na sala do último apartamento dela, e que agora decora a minha sala. Me vejo sozinha, sem filhos, sem irmãos, com minhas dezenas de plantas, uma inclusive tatuada no ombro esquerdo. Me sinto bem. Quanta coisa mudou em apenas duas gerações.

O “clik” que escapa do tempo[2]

Sabe o que voa? O tempo. Pergunta retórica de Maria Antônia, de 7 anos, no Natal. Voa lentamente. Pedalo até a Praia Vermelha enquanto escuto um podcast sobre recomeços. Tem meses que não vou lá, mas passou tão rápido…  O primeiro mergulho no mar tinha que ser na praia que foi meu refúgio em 2020. Entre recomeços, tentativas e recorrências, invento meus próprios rituais e os sigo como se deles dependesse essa sorte nas pequenas coisas que vem me acompanhando há algum tempo. Minha melhor amiga foi quem me chamou atenção sobre isso.

O momento pleno é o cerne do tempo absoluto, é o ponto ínfimo dentro da existência, escreveu Lygia Clark no seu diário, autoajuda-chique, apresentado por outra grande amiga. Plenitude fugaz. Um mergulho. Que sorte a minha!

Já estava com saudades de seu Heitor. Todos os dias, ele caminha sozinho na areia. Um andar que tomba pro lado esquerdo, peito branco, cabelos e bigode brancos, sunga azul, chapéu panamá. Bem cedinho.

Gosto de imaginar a vida desse senhor, que virou meu companheiro, ainda que talvez ele nunca tenha notado minha existência. Gosto de observá-lo com admiração. Tenho muito de seu Heitor. O gosto pelo mar, pela vida, a solidão, a cintura torta pro lado esquerdo. É muito querido. Todos da praia o chamam pelo nome. Quer um coco, seu Heitor? Hoje não.

Enquanto acompanho com os olhos esse caminhar solitário, imagino sobre sua vida. Provavelmente uma boa vida. Reflito sobre a velhice e a morte. A dele e a minha. Uma vez, ouvindo um outro podcast me deparei com a pergunta: qual o último som que você gostaria de escutar? Fiquei na dúvida entre as ondas batendo na areia da praia ou o rio correndo por meio da mata.  Não sei se seu Heitor já pensou sobre isso, acho que não, mas talvez ele preferisse as ondas suaves da Praia Vermelha.


[1] Narrador-personagem do livro Leite Derramado, de Chico Buarque, que morava num casarão em Botafogo.

[2] Frase riscada por Lygia Clark em seu diário. CLARK, Lygia. “O autorretrato de Mario Pedrosa”. In Lygia Clark: uma retrospectiva. Org. DUARTE, Sérgio; SCOVINO, Felipe. São Paulo: Itaú Cultural, 2015, p. 95.

Publicado por Júlia Amin

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