{"id":90,"date":"2021-07-30T12:30:38","date_gmt":"2021-07-30T12:30:38","guid":{"rendered":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/?p=90"},"modified":"2021-09-08T19:31:49","modified_gmt":"2021-09-08T19:31:49","slug":"safira-moreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/es\/safira-moreira\/","title":{"rendered":"Safira Moreira"},"content":{"rendered":"<pre class=\"wp-block-preformatted\">Biografia: Safira Moreira nasceu no bairro do Engenho Velho da Federa\u00e7\u00e3o, Salvador, em 1991. H\u00e1 anos trabalha com imagens de pessoas negras, ao redor de uma pol\u00edtica da mem\u00f3ria. \u00c9 diretora de fotografia, diretora e roteirista. Formou-se em cinema na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Roteirizou, dirigiu e montou seu primeiro curta-metragem \u201cTravessia\u201d, premiado em diversos festivais nacionais e internacionais; distribu\u00eddo pela Vitrine Filmes em 2018; e em 2019 filme de abertura do Festival Internacional de Rotterdam. Dirigiu a fotografia do curta \u201cEu, minha m\u00e3e e Wallace\u201d (Irm\u00e3os Carvalho) premiado como Melhor Filme pelo j\u00fari popular do Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro e do longa-metragem \u201cA Mat\u00e9ria Noturna\u201d (Bernard Lessa), premiado como melhor filme na mostra Futuro Brasil no Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro. Em 2019 roteirizou e dirigiu a s\u00e9rie documental \u201cIyas Idanas \u2013 Mulheres da Cozinha\u201d, em fase de montagem. Trabalha desde 2018 no longa-metragem CAIS, premiado no FUNDO AVON MULHERES DO AUDIOVISUAL e no RUMOS ITA\u00da CULTURAL.<\/pre>\n\n\n\n<p>Conheci o trabalho de Safira Moreira em 2017, em sala de aula, atrav\u00e9s do filme <em>Travessia <\/em>(2017), que me foi apresentado pela cineasta Yasmin Thain\u00e1. Yasmin j\u00e1 havia realizado <em>Kbela <\/em>(2013), curta que aposta em performances para dar forma e visualidade a experi\u00eancias de mulheres negras. Dessa vez, na disciplina de montagem do curso de cinema da PUC-Rio, estimulei a turma a produzir um experimento a partir de imagens pessoais. Foi quando Yasmin, provocada por <em>Travessia<\/em>, chamou a minha aten\u00e7\u00e3o para a rela\u00e7\u00e3o entre a aus\u00eancia de fotografias de fam\u00edlias pretas no Brasil e o baixo poder aquisitivo dessas fam\u00edlias, o que seria uma consequ\u00eancia da escravid\u00e3o e do racismo no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"_ftnref1\">O curta parte de uma fotografia em preto e branco de uma mulher negra com uma crian\u00e7a branca no colo. Ao espectador, n\u00e3o \u00e9 revelada a integralidade da imagem de uma s\u00f3 vez. A partir de diferentes reenquadramentos na montagem, percebemos detalhes dos corpos e do espa\u00e7o que ocupam a imagem: os p\u00e9s cal\u00e7ados com o chinelo surrado sobre o ch\u00e3o de terra, o mato que cresce de modo quase selvagem na paisagem, a pele negra de m\u00e3os femininas que seguram no colo com cuidado um beb\u00ea branco, um leve sorriso esbo\u00e7ado quando o olhar da mulher encara a c\u00e2mera. No verso da fotografia, a inscri\u00e7\u00e3o &#8220;Tarcisinho e sua bab\u00e1&#8221; revela a viol\u00eancia da imagem a princ\u00edpio t\u00e3o terna: n\u00e3o interessa o nome, a hist\u00f3ria, o passado e a experi\u00eancia dessa mulher que ocupa o centro da imagem, ela \u00e9 a bab\u00e1. No entanto, a partir da montagem, essa presen\u00e7a ganha protagonismo e esse corpo revela a sua for\u00e7a. Como aponta Juliano Gomes em cr\u00edtica ao filme, &#8220;h\u00e1 ali uma presen\u00e7a negra que afirma uma presen\u00e7a atual e uma aus\u00eancia hist\u00f3rica&#8221;<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>. A partir dessa imagem de uma mulher negra an\u00f4nima, a bab\u00e1 de Tarcisinho, Safira Moreira fala de si, da pr\u00f3pria fam\u00edlia e do desejo de preencher aus\u00eancias com novos registros. Safira busca imagens que restam e cria imagens que faltam a partir de performances de fam\u00edlias negras que posam no presente para a c\u00e2mera ao final do filme.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-vimeo wp-block-embed-vimeo wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Travessia\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/236284204?dnt=1&amp;app_id=122963&amp;h=376abcb21b\" width=\"750\" height=\"422\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption>Curta-metragem de abertura do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam 2019. #IFFR2019<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Desde o primeiro momento, fiquei curiosa sobre a busca dessas fotografias com inscri\u00e7\u00f5es raras desses corpos negros, dessas imagens que restam. Essa n\u00e3o foi a \u00fanica fotografia encontrada por Safira. Em 2015, a artista passou a percorrer feiras de antiguidades do Rio de Janeiro, onde morava, e de outras que visitava em busca de registros que traziam as inscri\u00e7\u00f5es, as poses, as roupas e olhares de pessoas negras. O que encontrou foram velhos \u00e1lbuns de fam\u00edlia de pessoas brancas, datados entre os anos 1940 e 1950. O processo de garimpagem envolveu horas de pesquisa e de um olhar minucioso para as imagens em busca de algo raro. A cada vez que percorria os espa\u00e7os urbanos procurando esses registros, percrustava cerca de 300 imagens, gastava horas sentada olhando o material e raramente encontrava o que procurava. Um trabalho imersivo e consciente da necessidade de constituir um pequeno acervo com essas fotografias.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image20.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-91\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image20.png 640w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image20-300x169.png 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image20-18x10.png 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image20-550x309.png 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image21.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-92\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image21.png 640w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image21-300x169.png 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image21-18x10.png 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image21-550x309.png 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image22.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-93\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image22.png 640w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image22-300x169.png 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image22-18x10.png 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image22-550x309.png 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image23.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-94\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image23.png 640w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image23-300x169.png 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image23-18x10.png 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image23-550x309.png 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image24.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-95\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image24.jpeg 640w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image24-300x225.jpeg 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image24-16x12.jpeg 16w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/image24-550x413.jpeg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Colocar perguntas sobre as imagens que restam \u00e9 um modo de recuperar a hist\u00f3ria de an\u00f4nimos que algum dia se depararam com uma c\u00e2mera. S\u00e3o os corpos, express\u00f5es e gestos daqueles que atravessaram os caminhos dos fot\u00f3grafos e que ficaram impressos em fotografias que nos instigam a pensar nas singularidades dos sujeitos filmados, nas presen\u00e7as que ficaram marcadas nos registros. Ao olhar para uma dessas fotografias, Safira descreve o mal estar de perceber que a mulher negra no canto da cena montada pela fam\u00edlia branca est\u00e1 ali a contra-gosto. S\u00e3o fabula\u00e7\u00f5es incitadas por esses registros e produzidas pela cineasta que pensa em uma pol\u00edtica dos arquivos fotogr\u00e1ficos e cinematogr\u00e1ficos como uma pol\u00edtica da mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"_ftnref2\">Ficamos curiosos para saber o que Safira far\u00e1 com o pequeno acervo que vem coletando a medida que percorre os espa\u00e7os urbanos e que vem sendo constitu\u00eddo nos \u00faltimos anos. Recentemente, a artista fez interven\u00e7\u00f5es nas imagens, apagando o rosto das pessoas brancas presentes nas fotografias. Na exposi\u00e7\u00e3o art\u00edstica virtual Acervo Imediato<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>, as interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o acompanhadas de coment\u00e1rios em audio de Safira. Na apresenta\u00e7\u00e3o do projeto, ela explica. &#8220;Neste trabalho-processo, fabulo sobre apagar e reescrever as hist\u00f3rias, soterrando o rosto dos sujeitos brancos com caf\u00e9 e a\u00e7\u00facar, s\u00edmbolos do princ\u00edpio e perman\u00eancia da pol\u00edtica extrativista-branca-exploradora&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho pode ser conferido no link: <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/acervoimediato.denda.com.br\/acervo-safira\/\" target=\"_blank\">https:\/\/acervoimediato.denda.com.br\/acervo-safira\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<p class=\"_ftnref1 has-small-font-size\" id=\"_ftn1\"><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> GOMES, Juliano. Ilha, Travessia ou por um cinema negro desobediente. http:\/\/revistacinetica.com.br\/nova\/juliano-ilha-travessia-ou-por-um-cinema-negro-desobediente-2021\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\" id=\"_ftn2\"><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Exposi\u00e7\u00e3o virtual acess\u00edvel em: https:\/\/acervoimediato.denda.com.br\/acervo-safira\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia: Safira Moreira nasceu no bairro do Engenho Velho da Federa\u00e7\u00e3o, Salvador, em 1991. H\u00e1 anos trabalha com imagens de pessoas negras, ao redor de uma pol\u00edtica da mem\u00f3ria. \u00c9 diretora de fotografia, diretora e roteirista. Formou-se em cinema na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. 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