{"id":494,"date":"2022-04-13T01:37:00","date_gmt":"2022-04-13T01:37:00","guid":{"rendered":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/?p=494"},"modified":"2025-12-19T01:41:40","modified_gmt":"2025-12-19T01:41:40","slug":"o-encantado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/es\/o-encantado\/","title":{"rendered":"O Encantado"},"content":{"rendered":"<p>Para minhas av\u00f3s, Gloria e Ceci&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na companhia da minha av\u00f3, estou sentada na cal\u00e7ada de uma rua qualquer, no bairro do Encantado, Zona Norte do Rio de Janeiro. Pequena, devo ter sete ou oito anos, espero ansiosa pelo bate-bola desconhecido que, em algum momento do bloco, vai passar por n\u00f3s. \u00c9 carnaval. Como todos os anos, eu e minha av\u00f3 pegamos o \u00f4nibus na Tijuca na dire\u00e7\u00e3o do sub\u00farbio para vermos a figura mascarada de trajes bufantes. Como todos os anos, sa\u00eda da cidade de Curitiba em dezembro, com meus pais e irm\u00e3o, para passar as f\u00e9rias no Rio e visitar a fam\u00edlia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O carnaval da TV e as festas infantis dos clubes, mesmo acompanhada dos amiguinhos, me interessavam pouco. Idolatrava aquela figura mascarada, insolente e andr\u00f3gina. O fasc\u00ednio por aquele ser enganador era tal que jamais esqueci quando vi pela primeira vez a figura de corpo e voz indefinidos de Ney Matogrosso, em uma apresenta\u00e7\u00e3o do Secos e Molhados, no programa do Fant\u00e1stico. L\u00e1 estava eu e os primos, diante da TV, pasmos com suas amea\u00e7as de virar um animal pelo avesso. Era certamente um bruxo. O rosto oculto pela m\u00e1scara, o cabelo preso por uma fita vermelha num coque atr\u00e1s da nuca, a grinalda dourada na cabe\u00e7a e o corpo cabeludo. Que criatura radiante, bela, espantosa! O corpo meio homem meio mulher meio bicho dan\u00e7ava um bailado b\u00e1rbaro e sensual. Seria ele tamb\u00e9m um bate-bola?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDe\u00ednha, vamos pra rua ver o cl\u00f3vis, vamos pro Encantado.\u201d Sou tomada de uma agita\u00e7\u00e3o repentina. Me aprumo e em poucos minutos j\u00e1 estamos dentro do \u00f4nibus. Chupo picol\u00e9 de c\u00f4co e guardo uns pacotinhos de amendoim no bolso. Vov\u00f3 Ceci fala muitas coisas que n\u00e3o encontram ader\u00eancia na minha imagina\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a espoleta. As palavras rodopiam no ar e se esvaem r\u00e1pidas. Ela tinha amigos no Encantado. Imagino, lambendo o picol\u00e9, um lugar similar \u00e0quele das hist\u00f3rias infantis, m\u00e1gico e cheio de beleza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estou sentada na cal\u00e7ada esperando o bate-bola. J\u00e1 come\u00e7a a escurecer e a tarde ganha uma tonalidade castanha, levemente alaranjada. Passam bailarinas prateadas, palha\u00e7os de olhos arregalados, m\u00e1scaras apavorantes de macaco, de caveiras amaldi\u00e7oadas, o homem verde Hulk, o super-homem, a batucada com as sambistas rodopiantes, os namorados em beijos intermin\u00e1veis. Penso, amuada, que o bloco n\u00e3o acaba nunca. \u201cEste ano n\u00e3o vai ter bate-bola\u2026\u201d Talvez fosse 1978 ou 1979. A onda disco se espalhava velozmente e minha mem\u00f3ria \u00e9 visitada por flashes de meias de lurex coloridas, collants vermelhos, cabelos volumosos e sand\u00e1lias plataformas brilhantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estou sentada na cal\u00e7ada esperando o bate-bola. Espero. E o bloco passa, embalado numa gargalhada c\u00f3smica. Em meio ao frenesi e \u00e0 cantoria coletiva, eis que surge o cl\u00f3vis fazendo gestos amplos e extravagantes. Encapuzado, de cal\u00e7as bufantes, com o blus\u00e3o preto de mangas longas e adere\u00e7os reluzentes, ele grita, pula e bate violentamente no ch\u00e3o a bola de borracha (ou seria a bexiga de boi?). Sim, ele vem tocando o terror! Olho siderada para a foice da morte. Era mesmo prateada e descomunal? Sinto borboletas no est\u00f4mago e a cal\u00e7ada movedi\u00e7a. O capuz preto, a m\u00e1scara de tela com a caveira de dentes afiados, sua demonstra\u00e7\u00e3o de poder, as luvas, os mei\u00f5es, a foice macabra, as lantejoulas no peito. Levanto da cal\u00e7ada de-va gar, num misto de fasc\u00ednio e terror.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOlha, De\u00ednha, ele viu voc\u00ea\u2026 t\u00e1 vindo falar com voc\u00ea\u201d. Meu corpo est\u00e1 im\u00f3vel. O bate-bola para na minha frente. N\u00e3o tem rosto. N\u00e3o tem voz. E o bloco de carnaval emudece de repente. A gura negra faz uma breve rever\u00eancia, com sua capa bordada e colossal, e me oferece a sua m\u00e3o enluvada, que seguro firme. Sa\u00edmos os dois andando em meio ao bloco. Tudo \u00e9 noite. Tudo \u00e9 sil\u00eancio. Tudo \u00e9 agora. Sinto frio e reparo que meu cora\u00e7\u00e3o pequenino bate revolucionado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto tempo se passou? O que se passou? Que dist\u00e2ncia percorremos? Vov\u00f3 Ceci conta para fam\u00edlia que foram alguns minutos. \u201cAh\u2026? Ficamos de m\u00e3os dadas um temp\u00e3o!\u201d, retruco contrariada. A sensa\u00e7\u00e3o, ainda hoje, \u00e9 que o tempo arrumadinho, do antes e depois, sucumbiu desamparado naquele dia, naquela hora, naquela rua sem nome da Zona Norte.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para minhas av\u00f3s, Gloria e Ceci&nbsp; Na companhia da minha av\u00f3, estou sentada na cal\u00e7ada de uma rua qualquer, no bairro do Encantado, Zona Norte do Rio de Janeiro. 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