{"id":496,"date":"2022-04-13T01:43:00","date_gmt":"2022-04-13T01:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/?p=496"},"modified":"2025-12-19T01:50:14","modified_gmt":"2025-12-19T01:50:14","slug":"policia-e-pombo-onibus-e-praia-crack-e-poste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/en\/policia-e-pombo-onibus-e-praia-crack-e-poste\/","title":{"rendered":"Pol\u00edcia e pombo, \u00f4nibus e praia, crack e poste"},"content":{"rendered":"<p>Um ano e meio atr\u00e1s, aparecem no instagram alguns v\u00eddeos onde cenas de um Rio de Janeiro invisibilizado explodem na tela do celular, invadem o mundo maquiado da rede social e instalam um curto-circuito no algoritmo do \u201cbom- gosto\u201d. S\u00e3o os&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>v\u00eddeos de @najur_, Ana Julia Theodoro, jovem skatista carioca que registra pequenos momentos da vida real em suas andan\u00e7as \u2013 seja de moto, de skate, ou no fundo do mar \u2013 e depois os arranja em uma montagem fren\u00e9tica, como verdadeiras sinfonias da cidade. N\u00e3o possuem mais de um minuto cada, mas dentro do seu espa\u00e7o de tempo cabem muitas imagens; entre montagens mais e menos velozes, a m\u00e9dia geral dificilmente passa de 1 segundo para cada plano que comp\u00f5e o todo.&nbsp;Os v\u00eddeos circulam soltos na rede, pelo territ\u00f3rio hostil do Instagram, onde imperam padr\u00f5es \u2013 de beleza, de consumo \u2013 globais. O mais assistido chegou a 1 milh\u00e3o de visualiza\u00e7\u00f5es: eles viralizaram de modo t\u00e3o org\u00e2nico \u2013 neste aplicativo cujo algoritmo torna o engajamento uma tarefa especialmente complexa \u2013 que esta repercuss\u00e3o pode ser entendida como sintoma de algum fervor sensorial. Claro, o Rio de Janeiro, por si s\u00f3, funciona tal qual uma commodity extremamente valorizada, que agrega um bocado a qualquer produto\/pessoa; mas @najur_ n\u00e3o parece muito disposta a comprar o pacote completo. Ela vai costurando, por cima do cart\u00e3o-postal, sua cataloga\u00e7\u00e3o dessas marcas do ins\u00f3lito, do transgressivo e do desviante; do feio, do inaceit\u00e1vel e do tosco. Traz lances perdidos do espa\u00e7o-tempo, eterniza o microsc\u00f3pico. At\u00e9 usa de modo bastante direto as ferramentas do reels, tomando m\u00fasicas c\u00e9lebres como fio-condutor da eletricidade imag\u00e9tica, quase como videoclipes (recentemente, foi premiada pelo clipe de \u201cCrash\u201d, de Ju\u00e7ara Mar\u00e7al); mas talvez esteja, afinal, neste gesto, realizando um certo potencial adormecido da m\u00e1quina, testando limites do celular para fazer um cinema do nosso tempo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"853\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Design-sem-nome-1-1024x853-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-497\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Design-sem-nome-1-1024x853-1.png 1024w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Design-sem-nome-1-1024x853-1-300x250.png 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Design-sem-nome-1-1024x853-1-768x640.png 768w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Design-sem-nome-1-1024x853-1-14x12.png 14w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Design-sem-nome-1-1024x853-1-750x625.png 750w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Design-sem-nome-1-1024x853-1-550x458.png 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">8 planos seguidos do v\u00eddeo Bandidoh<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil generalizar os temas que s\u00e3o abordados nos filmes, por causa de um declarado senso de imprevisibilidade que norteia cada um. No entanto, existem alguns motivos inegavelmente recorrentes que atravessam os diversos trabalhos. A pol\u00edcia e seu arsenal de guerra; os garotos pulando na Ba\u00eda de Guanabara ao p\u00f4r\u00a0do-sol; os transportes, metr\u00f4, \u00f4nibus, trem; a popula\u00e7\u00e3o de rua, os loucos ou cracudos, bem como trabalhadores e engravatados; lixo, pixa\u00e7\u00f5es nos muros, ru\u00ednas; s\u00e3o os signos da guerra e possuem um lugar privilegiado em sua obra. Mas tudo, virtualmente, pode ser retido por sua impass\u00edvel c\u00e2mera de celular, e este \u00e9 o mote do jogo. Os m\u00ednimos detalhes, os corpos e lugares: qualquer coisa que atenda, para seu olhar, ao sentimento do absurdo. As evid\u00eancias maiores, enfim, de que o Rio de Janeiro \u00e9 um grande campo de batalha, e seu cen\u00e1rio surreal, abomin\u00e1vel mas belo, ca\u00f3tico e sublime, \u00e9 reconstru\u00eddo atrav\u00e9s da busca por aquilo que menos \u00e9 mostrado (ou, quando o \u00e9, por uma lente saturada) e, no entanto, parece constituir o cerne da experi\u00eancia de viver aqui \u2013 aquilo que se v\u00ea ao andar nas ruas, mas tamb\u00e9m aquilo que corre subterraneamente pelo imagin\u00e1rio coletivo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Penso nas v\u00e1rias representa\u00e7\u00f5es do Rio \u00e0s quais o v\u00eddeo parece se opor: dos telejornais mais sensacionalistas aos mais c\u00ednicos, em que h\u00e1 aquele agressivo filtro da media\u00e7\u00e3o higienizando todos os acontecimentos horr\u00edveis que s\u00e3o mostrados. Imbui as pessoas fragilizadas de passividade, e as encapsula em pap\u00e9is pr\u00e9&nbsp;fabricados. Todo dia trazem \u00e0 tona imagens da pobreza, da criminalidade, da viol\u00eancia, e sempre a partir da mesma abordagem supostamente objetiva, aquela aparente frieza protocolar que serve para planificar tudo, racionalizar o inconceb\u00edvel, e nos distanciar do que est\u00e1 ao lado. O discurso da cultura de massa mobiliza tens\u00f5es e ang\u00fastias da sociedade para administr\u00e1-los e compens\u00e1-los em fun\u00e7\u00f5es ut\u00f3picas, transcendentes. Os piores assuntos s\u00e3o capazes de ser amenizados e entregues numa embalagem de normalidade que, ao fim do dia, assegura nossa esgar\u00e7ada cordialidade social \u2013 e resta, das reportagens televisivas, um vago sentido de den\u00fancia e cr\u00edtica das \u201cmazelas do povo\u201d, estes rastros do atraso que ainda h\u00e3o de ser extirpados, sempre configurando a favela como incompletude e car\u00eancia, foco infernal das desgra\u00e7as coletivas. A for\u00e7a das imagens de @najur_ deve-se justamente por superar o paradigma da den\u00fancia, que geralmente acaba por se enredar numa confus\u00e3o entre cr\u00edtica social e mero desejo por espet\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"915\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Untitled-3-1024x915-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-498\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Untitled-3-1024x915-1.jpg 1024w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Untitled-3-1024x915-1-300x268.jpg 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Untitled-3-1024x915-1-768x686.jpg 768w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Untitled-3-1024x915-1-13x12.jpg 13w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Untitled-3-1024x915-1-750x670.jpg 750w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Untitled-3-1024x915-1-550x491.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">8 planos seguidos do v\u00eddeo \u2018COMPILADO\u2019 <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Suas imagens v\u00eam como presen\u00e7a bruta, com o fasc\u00ednio pelo espont\u00e2neo que d\u00e1 peso ao registro \u201camador\u201d e marca a est\u00e9tica do v\u00eddeo viral da internet. Mais do que testemunhar, ela se prop\u00f5e a capturar flagrantes, aqueles instantes que s\u00f3 poderiam ser gravados por um observador atento e perspicaz. Sobre cada um paira o selo da realidade crua. Posteriormente, n\u00e3o ficam submetidos a uma ret\u00f3rica simplista; a busca parece ser mais pela organiza\u00e7\u00e3o de uma simultaneidade, um tudo-de-uma&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>vez. Na montagem est\u00e1 o gesto an\u00e1rquico, tradicionalmente carnavalesco, que deseja impor a tudo uma severa lei de equival\u00eancia, que devora a paisagem sem dar nada em troca, sen\u00e3o o prazer dessa equaliza\u00e7\u00e3o irreverente que desmonta categorias e hierarquias, devolvendo ao elemento cotidiano sua face selvagem. \u00c9 precisamente nessa maneira de reuni\u00e3o dos fragmentos onde mora a verve da revolta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica apenas torna r\u00edtmica esta enxurrada e extrai por completo a pot\u00eancia de cada imagem. Tudo fica imbu\u00eddo de um sentido francamente \u00e9pico. Com m\u00fasicas como \u201cA Vida \u00e9 Desafio\u201d, dos Racionais, \u201cAt\u00e9 \u01eauando?\u201d de Gabriel o Pensador, ou \u201cA Carne\u201d de Elza Soares, os filmes aderem a um tom mais duro, emotivo; outros chegam a utilizar o Hino Nacional, ou um rock pesado, ou m\u00fasicas pop como Fernanda Abreu e Em\u00edlio Santiago. Mas o que realmente predomina \u00e9 o funk, o funkz\u00e3o, gasta\u00e7\u00e3o de onda m\u00e1xima. E \u00e9 o ritmo nervoso, tresloucado, do funk carioca, que ressignifica a aventura. O funk \u00e9 incumbido dessa expurga\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea do tr\u00e1gico destino que talvez ainda aguarde esta desordem terrena.&nbsp;Voc\u00ea est\u00e1 no Instagram, no mundo das imagens replicadas ao infinito, mas as imagens de @najur_ voc\u00ea n\u00e3o escolhe, n\u00e3o olha o quanto quiser. \u00c9 numa fra\u00e7\u00e3o de segundo \u2013 a partir desse contato do qual formamos apenas uma impress\u00e3o muito imediata, um choque mental \u2013 que podemos experimentar a vis\u00e3o desse lado da cidade maravilhosa; cada peda\u00e7o justaposto a todo o resto. Alegria e tristeza, tudo junto ou nada. De suas descri\u00e7\u00f5es precisas e impiedosas do campo de batalha que \u00e9 o Rio, emerge um outro tipo de beleza que n\u00e3o se reduz ao desejo de incitar indigna\u00e7\u00e3o ou compaix\u00e3o. Um tipo contestador de beleza, que se abst\u00e9m de tentar calcular um caos que n\u00e3o \u00e9 mensur\u00e1vel. Tampouco sua sensibiliza\u00e7\u00e3o passa pelo pressuposto de uma \u201chumaniza\u00e7\u00e3o\u201d, ou apela para a individua\u00e7\u00e3o das \u201chist\u00f3rias de vida\u201d \u2013 como buscou, por exemplo, a p\u00e1gina Rio Invis\u00edvel. Outra \u00e9tica vai se configurando aqui: uma que abarca a vertigem da proximidade; que aborda fatos sociais enquanto, primeiro, fen\u00f4menos est\u00e9ticos. Toca nas feridas do coletivo, mobiliza-nos emocionalmente; mas n\u00e3o em troca de assegurar, ao fim, qualquer sentido ut\u00f3pico de que as coisas v\u00e3o melhorar. Pelo contr\u00e1rio, reafirma incondicionalmente a distopia do presente. Reafirmar sua estranha beleza seria como a \u00faltima forma de manter a sanidade por aqui.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um ano e meio atr\u00e1s, aparecem no instagram alguns v\u00eddeos onde cenas de um Rio de Janeiro invisibilizado explodem na tela do celular, invadem o mundo maquiado da rede social e instalam um curto-circuito no algoritmo do \u201cbom- gosto\u201d. 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