{"id":479,"date":"2022-04-13T00:55:00","date_gmt":"2022-04-13T00:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/?p=479"},"modified":"2025-12-19T01:34:36","modified_gmt":"2025-12-19T01:34:36","slug":"memorial-do-rio-uma-analise-heterotopica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/en\/memorial-do-rio-uma-analise-heterotopica\/","title":{"rendered":"Memorial do Rio: uma an\u00e1lise heterot\u00f3pica"},"content":{"rendered":"<h4 class=\"wp-block-heading\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p>Ao acaso, tive acesso \u00e0s heterotopias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o conhecia essa classifica\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, esse esfor\u00e7o de pens\u00e1-lo inscrito n\u00e3o na neutralidade, mas no mundo f\u00edsico, com suas falhas e irregularidades. Nunca me interessei pelo que se tornam as utopias quando s\u00e3o materialmente realizadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas com Maria Alice, eu sabia. Havia uma heterotopia em seu quintal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um lugar onde, para entrar, era preciso afastar algumas plantas do seu rosto, pois elas empurravam incomodadas o port\u00e3o da casa quando algu\u00e9m ousava abri-lo, for\u00e7ando-o contra elas. Rodeado por um muro engolido por buganviles rosa, o jardim reunia exemplares dos mais diversos, como um pequeno o\u00e1sis bot\u00e2nico em meio a um condom\u00ednio asfaltado e quase sem cal\u00e7ada. Mesmo com um ch\u00e3o todo azulejado, o verde dominava a paisagem em canteiros, vasos e potes suspensos. Samambaias, azaleias, rosas, rosas do deserto, margaridas, tumb\u00e9rgias. Fora a horta, com tomate, maracuj\u00e1, inhame, boldo, manjeric\u00e3o. Mesmo a bananeira da vizinha tinha inveja da fertilidade do terreno ao lado e fazia quest\u00e3o de esticar seu bra\u00e7o at\u00e9 depois do muro para que seus frutos ca\u00edssem na heterotopia de minha av\u00f3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E a guardi\u00e3 n\u00e3o deixava barato para nenhuma visita. Todos que ali entrassem, deveriam ser conduzidos por um passeio, no qual ela mostraria de perto cada exemplar, como se a Arca de No\u00e9 da flora mundial fosse a sua casa. N\u00e3o \u00e0 toa, na \u00faltima vez em que a vi, ambos com m\u00e1scara no rosto para uma fofoca distanciada que reduzisse as saudades, Maria Alice, al\u00e9m do tour, ofereceu-me um vaso para que eu tivesse tamb\u00e9m um peda\u00e7o de seu jardim. O ant\u00fario que ganhei era lindo. Sua flor vermelha e em formato de cora\u00e7\u00e3o parecia pl\u00e1stico e, apesar de durar muito, n\u00e3o o era, pois, mais cedo do que eu esperava, ela murchou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa foi a \u00faltima vez que vi minha av\u00f3 em vida. Um pouco mais de duas semanas depois disso, minha av\u00f3 foi internada. N\u00e3o muito ap\u00f3s, ela faleceu, v\u00edtima da covid 19. Meu av\u00f4, seu marido, tamb\u00e9m foi internado, e apesar de n\u00e3o ter evolu\u00eddo como um caso grave e, eventualmente, ter se curado da doen\u00e7a, saiu do hospital com suas sequelas da idade ainda mais agravadas. Ele tamb\u00e9m faleceu alguns meses depois.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos foram enterrados num lugar com menos cores: o Memorial do Rio, um cemit\u00e9rio vertical. J\u00e1 havia estado em alas de gaveta dentro de cemit\u00e9rios \u201cnormais\u201d, daqueles com l\u00e1pides e mausol\u00e9us. Tamb\u00e9m j\u00e1 havia assistido a filmes, como Sinfonia da Necr\u00f3pole, que satirizam o estranhamento da morte verticalizada. Mas foi a primeira vez em que de fato entrei em um pr\u00e9dio inteiramente dedicado a isso, sem nenhum outro tipo de jazigo. Foi tamb\u00e9m a primeira vez em que enterrei entes t\u00e3o pr\u00f3ximos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do Memorial do Rio, antes de sua constru\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havia um cemit\u00e9rio tradicional no territ\u00f3rio. Como diriam as letras douradas pregadas na parede da recep\u00e7\u00e3o, trata-se de \u201cum novo conceito em cemit\u00e9rio\u201d. Tangenciando a Avenida Brasil, no bairro Peixoto, do Rio de Janeiro, bem pr\u00f3ximo a Duque de Caxias, de onde venho e onde eu e minha fam\u00edlia moramos por muitos anos, o pr\u00e9dio \u00e9 cercado por sedes de transportadoras. Do lado de fora de seus muros, h\u00e1 barracas onde se vende salgado e refresco a seis reais \u00e0s fam\u00edlias enlutadas e aos trabalhadores da empresa ao lado. O mesmo valor de um biscoito Fandangos na cafeteria do lado de dentro. \u00c9 um lugar \u00fanico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assimilar que parte da minha fam\u00edlia havia se mudado para l\u00e1 n\u00e3o foi exatamente simples. De uma ut\u00f3pica fertilidade, materializada sobre os azulejos bege daquele quintal, para um pr\u00e9dio revestido por poeira de estrada, muita coisa muda. Para fazer essa travessia, foi importante ter um o para me orientar. Por isso, longe de fazer jus a toda a problem\u00e1tica socioecon\u00f4mica e pol\u00edtica envolvendo cemit\u00e9rios verticais, as pr\u00f3ximas linhas pretendem ler o Memorial do Rio tamb\u00e9m como uma heterotopia. \u00c9 a tentativa de dar forma \u00e0 fisicalidade dos passos que dei quando, nos \u00faltimos meses, estive presente entre suas gavetas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Princ\u00edpio I<\/h4>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"733\" height=\"490\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-482\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem1.jpg 733w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem1-300x201.jpg 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem1-18x12.jpg 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem1-550x368.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 733px) 100vw, 733px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem 1 Vista de frente do Memorial do Rio, fotografia minha.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>O funcionamento das heterotopias pode, inicialmente, ser compreendido a partir de sua tipologia: abrigam crises ou desvios. As primeiras s\u00e3o tempor\u00e1rias, como os centros de servi\u00e7o militar, que acolhem jovens rapazes em per\u00edodo de amadurecimento. As segundas costumam ser permanentes. No caso do cemit\u00e9rio, a morte \u00e9 o desvio nal. Entretanto, para al\u00e9m da inoperosidade mais \u00f3bvia de um corpo falecido, a no\u00e7\u00e3o desviante poderia ser tamb\u00e9m pensada para os corpos enlutados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da sociedade brasileira, cada vez mais influenciada por um cristianismo neopentecostal conservador, a hip\u00f3tese da ressurrei\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que projeta uma imagem de plenitude dos que partiram, carrega ainda mais de signicado o ato de velar os mortos. Como se, para que os ressuscitados possam se recompor em sua integridade em outro plano, sua materialidade f\u00edsica precisasse de um m\u00ednimo de dignidade. Muito depois de Ant\u00edgona ousar enterrar seu irm\u00e3o, esse ritual continua a demandar de seus praticantes um desvio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso porque, depois da curva da morte, h\u00e1 uma longa estrada sem retorno para os que ficam. O luto se assemelha ent\u00e3o ao trauma ou, nas palavras de Diana Taylor, a uma performance de longa dura\u00e7\u00e3o. E o eterno retorno da encena\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica ao traumatizado tem, diante do t\u00famulo, seu palco por excel\u00eancia. Estar diante do jazigo \u00e9 tamb\u00e9m estar diante de um vazio palp\u00e1vel que ironicamente ganha corpo para a experi\u00eancia da perda, que do contr\u00e1rio nos acompanha sorrateira e despercebida pelas amenidades do cotidiano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ela, repousando em nosso sil\u00eancio, um desvio de longa dura\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Princ\u00edpio II&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>As heterotopias s\u00e3o marcadas tamb\u00e9m por transforma\u00e7\u00f5es ao longo da hist\u00f3ria de uma determinada sociedade. \u00c9 o que ocorreu inclusive com os cemit\u00e9rios. Em um Europa medieval, centrada no cristianismo, esses campos abertos de l\u00e1pides eram geralmente posicionados ao lado de igrejas, no cora\u00e7\u00e3o das cidades. Entretanto, a modernidade empurra os cemit\u00e9rios para os limiares urbanos, pois se a morte amea\u00e7a a vida, ela deve ser restringida assim como o fazemos com doen\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos cemit\u00e9rios do Rio de Janeiro localizam-se na liminaridade de seus bairros. O S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, abrigando in\u00fameros t\u00famulos c\u00e9lebres est\u00e1 no canto de Botafogo. O Memorial do Carmo, esgueirado no Caju entre a Avenida Brasil, a Ponte Rio Niter\u00f3i e a Ba\u00eda de Guanabara. E \u00e9 o caso tamb\u00e9m do Memorial do Rio, na outra ponta da Avenida Brasil, rodeado por estradas e \u00e0 margem da entrada principal para o Centro de Duque de Caxias. A diferen\u00e7a dele para os outros dois citados, contudo, \u00e9 que se trata de um pr\u00e9dio, sem nenhum descampado por onde se possa andar ao ar livre at\u00e9 encontrar a sepultura que se deseja visitar. \u00c9 um lugar distante, onde a introvers\u00e3o do corpo enlutado se fecha ainda mais para viver sua saudade.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"730\" height=\"489\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-483\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem2-1.jpg 730w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem2-1-300x201.jpg 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem2-1-18x12.jpg 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem2-1-550x368.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 730px) 100vw, 730px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem 2 Vista de uma das janelas do pr\u00e9dio para a Avenida Brasil, fotografia minha.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Poderia pensarmos que esse afastamento faz sentido na contemporaneidade, enquanto um esfor\u00e7o de tornar o ambiente para a viv\u00eancia espec\u00edfica do luto mais acolhedor. Para viver um outro tempo, aquele que d\u00f3i e demora, seria necess\u00e1rio afastar-se da explos\u00e3o de est\u00edmulos sensoriais a que os centros de grandes cidades como o Rio de Janeiro nos exp\u00f5em. Mas estar \u00e0 margem n\u00e3o significa para o Memorial do Rio estar completamente fora de uma l\u00f3gica urbana. O luto ganha corpo dentro de uma arquitetura tipicamente vertical, acinzentada, e por cujas janelas ouve-se ainda os ecos vazados dos carros em alta velocidade na Avenida Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Princ\u00edpio III&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>Uma mesma heterotopia pode reunir em si a sobreposi\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os distintos. O exemplo mais recorrente dessa caracter\u00edstica \u00e9 o pr\u00f3prio jardim e sua ut\u00f3pica pretens\u00e3o de reunir em si uma integralidade harm\u00f4nica do mundo das plantas. No caso dos cemit\u00e9rios, o que se sobrep\u00f5e \u00e9 precisamente o espa\u00e7o da mem\u00f3ria individual reservado a cada fam\u00edlia. Naqueles mais comuns, estruturados em um campo a c\u00e9u aberto ao longo do qual as sepulturas se organizam lado a lado, cada l\u00e1pide \u00e9 um esfor\u00e7o de individualiza\u00e7\u00e3o da pessoa que se foi. E as homenagens que marcam ef\u00eamera, mas frequentemente cada um dos t\u00famulos \u00e9 um reflexo disso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em cemit\u00e9rios verticais, como o Memorial do Rio, contudo, as possibilidades de constru\u00e7\u00e3o desse tipo de mem\u00f3ria, que se renova a cada visita familiar, s\u00e3o desafiadas. Isso porque a pr\u00f3pria estrutura de sobreposi\u00e7\u00e3o de gavetas literalmente sobrep\u00f5e tamb\u00e9m esses espa\u00e7os para homenagem que, em cemit\u00e9rios horizontais, tem seu territ\u00f3rio minimamente preservado. Mesmo a leitura das placas que caracterizam cada gaveta com um nome, uma data de nascimento e uma de falecimento \u00e9 dificultada se o jazigo estiver no topo da coluna. O que parece sobrar para a intera\u00e7\u00e3o dos corpos enlutados para com essas estranhas l\u00e1pides \u00e9 apenas uma superf\u00edcie de contato lisa e vertical, onde mesmo uma flor, para ser deixada, precisaria de um instrumento adicional, como uma ta crepe.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa planifica\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, que democraticamente homogene\u00edza os t\u00famulos, soa &#8211; n\u00e3o apenas impessoal, mas anest\u00e9sica. Enquanto artistas como Thomas Hirschhorn montam, para grandes personalidades falecidas, altares artesanais e destoantes em espa\u00e7os p\u00fablicos, sacudindo o automatismo dos que transitam na cidade, a \u00fanica possibilidade de cria\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica oficialmente dispon\u00edvel no Memorial do Rio s\u00e3o coroas de flores. Delicadamente penduradas sobre as gavetas ap\u00f3s o fim do sepultamento, elas fazem na verdade parte do servi\u00e7o de vel\u00f3rio. Ainda que a fam\u00edlia possa pedir frases personalizadas para estampar a guirlanda, ela ser\u00e1 retirada do t\u00famulo ap\u00f3s alguns dias.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"731\" height=\"489\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-484\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem3.jpg 731w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem3-300x201.jpg 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem3-18x12.jpg 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem3-550x368.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 731px) 100vw, 731px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem 2 Vista de uma das janelas do pr\u00e9dio para a Avenida Brasil, fotografia minha.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>H\u00e1, entretanto, um espa\u00e7o nesse pr\u00e9dio, no andar t\u00e9rreo, em que h\u00e1 alguma individualiza\u00e7\u00e3o para o luto: as capelas onde s\u00e3o velados os falecidos. De todo o edif\u00edcio, \u00e9 a parte mais barulhenta, onde se houve, logicamente, choros, mas bem mais frequente do que se pode imaginar, conversas e alguns risos. Parece que, em um lugar onde se pode estar visivelmente pr\u00f3ximo ao caix\u00e3o e, possivelmente, diante do ente falecido j\u00e1 pronto para seu \u00faltimo evento social, alguma leveza contida na intera\u00e7\u00e3o social d\u00e1 sustento aos que dolorosamente passam por uma perda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do enterro do meu av\u00f4 Arnaldo, o falecimento motivado por insufici\u00eancia dos \u00f3rg\u00e3os nos permitiu um vel\u00f3rio na capela 7. Est\u00e1vamos em abril de 2021, em um dos momentos mais cr\u00edticos da pandemia e n\u00e3o esperava ver tanta gente no mesmo local, mas aparentemente meu av\u00f4 era muito popular. Foi desesperador ver aproximadamente umas 40 pessoas esfregando as m\u00e3os nos pr\u00f3prios olhos encharcados, por vezes tirando a m\u00e1scara para se recompor, mas surpreendentemente tamb\u00e9m fui invadido por certo conforto em passar por essa cerim\u00f4nia em conjunto. N\u00e3o era qualquer morte, mas uma morte diferente para cada um dos indiv\u00edduos presente. De fato, h\u00e1 certa leveza nesse coletivo, que, mesmo contendo pessoas de quem nem gosto, ajudou a pessoalizar um momento duro, denso e frio.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"730\" height=\"489\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-485\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem4.jpg 730w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem4-300x201.jpg 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem4-18x12.jpg 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem4-550x368.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 730px) 100vw, 730px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem 4 T\u00famulo onde est\u00e1 enterrado meu av\u00f4, fotografia minha.\u00a0<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Depois da prociss\u00e3o aos andares de cima para fechar meu av\u00f4 em uma das gavetas, fiquei feliz pela exist\u00eancia da capela 7.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Princ\u00edpio IV&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>O tempo \u00e9 tamb\u00e9m fator influente na din\u00e2mica heterot\u00f3pica. Dentro delas, pode-se afirmar um regime temporal outro. A heterocronia do cemit\u00e9rio, portanto, para al\u00e9m da evidente eternidade que pauta a morte, costuma ser tamb\u00e9m a da eros\u00e3o. Em campos abertos, um tempo morto e evanescente se materializa visualmente a partir do inevit\u00e1vel desgaste que as l\u00e1pides, est\u00e1tuas, mausol\u00e9us e vegeta\u00e7\u00f5es sofrem com a a\u00e7\u00e3o de dissolu\u00e7\u00e3o orquestrada pela natureza, independente da manuten\u00e7\u00e3o gerida pela administra\u00e7\u00e3o do local.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No caso dos cemit\u00e9rios verticais, contudo, os jazigos est\u00e3o protegidos dessa eros\u00e3o. Mais ainda, eles est\u00e3o inseridos num sistema de limpeza e preserva\u00e7\u00e3o que os mantem religiosamente os mesmos durante os anos. A \u00fanica imagem diferente da estabilidade das gavetas empilhadas ocorre no momento mesmo do sepultamento, quando o caix\u00e3o entra no buraco que o aguarda enquanto a fam\u00edlia observa em um canto. Os funcion\u00e1rios do local, ent\u00e3o, posicionam a tampa sobre o v\u00e3o e come\u00e7am a sel\u00e1-lo com cimento. \u00c9 um processo que dura em torno de dez longos minutos. Ap\u00f3s, haver\u00e1 um quadrado branco ainda sem nome ou datas, apenas com um n\u00famero de identifica\u00e7\u00e3o e talvez uma coroa de flores pregada tamb\u00e9m pelos funcion\u00e1rios. A plaquinha com as informa\u00e7\u00f5es pessoais demora em torno de quinze dias para ficar pronta.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"731\" height=\"489\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem5-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-487\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem5-2.jpg 731w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem5-2-300x201.jpg 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem5-2-18x12.jpg 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem5-2-550x368.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 731px) 100vw, 731px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem 5 Incenso pendurado pela administra\u00e7\u00e3o em um dos corredores de gavetas, fotografia minha.\u00a0<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Da\u00ed em diante o t\u00famulo se mantem o mesmo durante os anos de contrato daquele jazigo, at\u00e9 o momento da exuma\u00e7\u00e3o, a qual ainda n\u00e3o presenciei e sobre a qual talvez n\u00e3o queira escrever ou pensar. Mas sei que perdura a estabilidade de um tempo n\u00e3o morto, mas congelado. E ele tem o aroma dos incensos que penduram no canto de cada corredor, misturado com o cheiro de cimento sempre fresco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Princ\u00edpio V&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>Entrar ou sair de heterotopias tamb\u00e9m envolve rituais espec\u00edficos. Seja a coa\u00e7\u00e3o das pris\u00f5es ou o sinal da cruz na porta da igreja, h\u00e1 de se passar por sistemas de &nbsp;abertura ou fechamento pr\u00f3prios em cada um desses espa\u00e7os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do Memorial do Rio, h\u00e1 na verdade um obst\u00e1culo bastante pragm\u00e1tico \u00e0 sua entrada: um valor monet\u00e1rio aceito por dinheiro ou pix. Isso para o caso de carros a serem estacionados no andar t\u00e9rreo do pr\u00e9dio. Mas o mesmo vale para quem vai at\u00e9 l\u00e1 de carro privado ou transporte p\u00fablico, a diferen\u00e7a talvez seja s\u00f3 as outras possibilidades de pagamento. O ponto \u00e9 que, por ser um edif\u00edcio localizado \u00e0 beira da estrada, o acesso at\u00e9 ele \u00e9 dificultado para quem o deseja fazer a p\u00e9: provavelmente ser\u00e1 necess\u00e1rio gastar algum dinheiro para chegar at\u00e9 l\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, uma certa personalidade metropolitana se faz presente. Dessa vez, materializada em carros e flaneurs, em tudo que cumpre a ordem m\u00e1xima do ch\u00e3o urbano, como afirma Andr\u00e9 Lepecki: a circula\u00e7\u00e3o. Se as cidades, dentro dessa fantasia de p\u00f3lis, s\u00e3o o ber\u00e7o de seres livres que se movem por onde bem entendem, performar um momento de dor que lhe exija dar-se conta do que n\u00e3o se move, da aus\u00eancia, \u00e9 necessariamente precisar parar. Deslocar-se pelos retornos da Avenida Brasil e pagar para entrar soa como uma burocracia amargamente adequada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A paragem final n\u00e3o sai de gra\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Princ\u00edpio VI&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>A \u00faltima caracter\u00edstica que as heterotopias apresentam diz respeito a sua fun\u00e7\u00e3o: elas iludem ou compensam. Os espa\u00e7os outros podem construir um car\u00e1ter fantasioso justamente para denunciar a falsidade do mundo fora dele, bem como podem, em vez disso, estruturar-se sob o mais r\u00edgido ordenamento, em contraste direto com o caos que comanda o exterior. Cemit\u00e9rios verticais, como Memorial do Rio, tentam, portanto, protocolar a experi\u00eancia dilacerante que pode ser perder algu\u00e9m, ainda que seu prec\u00e1rio protocolo n\u00e3o chegue de fato a compensar qualquer coisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o que houve quando perdi minha av\u00f3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Maria Alice faleceu um dia depois do Natal, uma data sobre a qual prefiro n\u00e3o escrever aqui. O enterro, entretanto, foi no dia seguinte, 27 de dezembro. O primeiro ano da pandemia terminou de maneira simbolicamente destrutiva, pois todo o ritual pelo qual pude passar no ano seguinte ao enterrar meu av\u00f4, n\u00e3o ocorreu meses antes, quando de maneira muito diferente enterramos minha av\u00f3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O protocolo recomendado para o funeral de quem falece de complica\u00e7\u00f5es da covid-19 \u00e9 n\u00e3o haver vel\u00f3rio. O caix\u00e3o \u00e9 fechado e poucas pessoas comparecem para, no caso, engavet\u00e1-lo. Eu e mais seis pessoas da fam\u00edlia estivemos presentes. Estando pela primeira vez no Memorial do Rio, n\u00e3o soube nem mesmo da exist\u00eancia de capelas, pois o caix\u00e3o foi liberado, pouco depois de termos chegado, e logo subimos para o corredor indicado. Os funcion\u00e1rios nos deram em torno de cinco minutos para realizarmos alguma cerim\u00f4nia. Rezamos algumas ora\u00e7\u00f5es e, com dificuldade, agradecemos a Maria Alice por tudo. Deu tempo tamb\u00e9m de ler a cr\u00f4nica Rosas silvestres, de Clarice Lispector. Tamb\u00e9m prero n\u00e3o tentar explicar em meus pr\u00f3prios termos do que se trata o texto, sob o risco de esvaziar palavras que foram t\u00e3o importantes num momento delicado.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"731\" height=\"489\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem5-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-486\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem5-1.jpg 731w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem5-1-300x201.jpg 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem5-1-18x12.jpg 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Imagem5-1-550x368.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 731px) 100vw, 731px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem 6 T\u00famulo onde est\u00e1 enterrada minha av\u00f3, fotografia minha.\u00a0<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>E assim fizemos um sinal com a cabe\u00e7a para que os funcion\u00e1rios prosseguissem com o cimento. Sem maiores despedidas, sem abra\u00e7os, sem observar pessoas queridas chegando para uma \u00faltima demonstra\u00e7\u00e3o de afeto, sem enxergar o rosto descansado de minha av\u00f3 pela \u00faltima vez. S\u00f3 o peso de um mundo que acabara de ruir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Meses de destro\u00e7os se seguiram antes de eu esbarrar com o texto de Michel Foucault. N\u00e3o foi conforto o que encontrei em suas palavras, mas talvez certo distanciamento. Pois \u00e9 dif\u00edcil aceitar que uma parte das pessoas que voc\u00ea ama est\u00e1 agora encaixada em paredes est\u00e9reis. N\u00e3o \u00e9 somente a falta de um caf\u00e9 da tarde na casa desse algu\u00e9m, mas a impossibilidade de reconhecer qualquer pessoalidade diante de uma gaveta cinza, que \u00e9 rigorosamente igual a todas as outras que a cercam. Mas o olhar heterot\u00f3pico revela que o tom impessoal \u00e9 de prop\u00f3sito. Num mundo, ou melhor, em um Brasil sem espa\u00e7o poss\u00edvel para a expurga\u00e7\u00e3o dessa dor, a frieza \u00e9 a maneira vi\u00e1vel de se passar por ela, de compensar a aus\u00eancia de compensa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um ensaio de acolhimento que n\u00e3o chega a acolher, mas d\u00e1 alguma materialidade ao luto, posto que o insere nas fissuras de uma sociedade verticalizada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ironicamente, quando voltei no Memorial do Rio pela terceira vez, para realizar as fotos que ilustram esse texto, em setembro de 2021, senti uma pontada de familiaridade por entre seus corredores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>A exist\u00eancia de cemit\u00e9rios verticais, como o Memorial do Rio, certamente insere-se em contextos que excedem esse escrito. E as marcas do per\u00edodo pand\u00eamico, creio eu, est\u00e3o longe de serem integralmente descobertas, menos ainda assimiladas. Mas na dificuldade que tem sido respirar plenamente em territ\u00f3rio brasileiro, esse texto foi uma tentativa de juntar alguns cacos para dar forma ao que soa como absurdo. N\u00e3o para tir\u00e1-lo desse lugar, mas para nos aproximar dele. Com algum sentido, com vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pois fato \u00e9 que, desde que minha av\u00f3 faleceu, apesar de ter conseguido retornar ao Memorial do Rio j\u00e1 algumas vezes, ainda n\u00e3o consegui retornar \u00e0 heterotopia que ela deixou para tr\u00e1s. O jardim de sua casa, onde hoje mora uma tia minha, que se mudou com a fam\u00edlia para cuidar das plantas da m\u00e3e, repousa aparentemente sob os mesmos princ\u00edpios heterot\u00f3picos. A filha agora jardineira e meu primo ca\u00e7ula regam com cuidado o matagal que envolve a casa e, pelas fotos que recebo, o esfor\u00e7o tem valido a pena. Entretanto, ainda n\u00e3o consegui reunir for\u00e7as para voltar a essa heterotopia e entender que seu funcionamento tamb\u00e9m foi alterado. A ilus\u00e3o do mundo inteiro que poderia caber em canteiros, vasos e potes suspensos agora foi desmascarada, e, por enquanto, eu talvez consiga lidar somente com a ordenada compensa\u00e7\u00e3o de um ambiente cinzento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tento n\u00e3o ter pressa. Isso quem me ensinou foi o ant\u00fario que minha av\u00f3 me deu. Desde que suas flores murcharam, elas custaram a nascer de novo, mesmo que a esp\u00e9cie flores\u00e7a o ano todo. Respeitando seu tempo de planta que n\u00e3o gosta de \u00e1gua, molhava-a em momentos muito pontuais. Troquei a terra algumas vezes e tamb\u00e9m a transferi para um vaso novo. A nova flor s\u00f3 veio na semana em que recebi a primeira dose da vacina que minha av\u00f3 deveria tamb\u00e9m ter tomado. \u00c9 uma flor engra\u00e7ada, brilhosa como pl\u00e1stico, vermelha como sangue.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de p\u00f4r os p\u00e9s no jardim de Maria Alice novamente, tenho a minha pr\u00f3pria micro heterotopia, onde ensaio nossa despedida como sauda\u00e7\u00e3o na materialidade da terra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia:&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>FOSTER. H. \u201cAn Archival Impulse\u201d. October 110, Fall 2004, pp. 3-22&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>FOUCAULT, M. \u201cDe espa\u00e7os outros\u201d. Estudos avan\u00e7ados, 27 (79), 2013&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>LEPECKI, A. \u201cCoreopol\u00edtica e coreopol\u00edcia\u201d. Ilha, Eletr\u00f4nica, vol. 13, n. 1, p. 41-60, jan.\/jun. (2011) 2012.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>TAYLOR, D. \u201cO trauma como performance de longa dura\u00e7\u00e3o\u201d. O percevejo, Eletr\u00f4nica, vol. 01, fasc\u00edculo 01, p. 1-12, jan.\/jun. 2009.&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Ao acaso, tive acesso \u00e0s heterotopias.&nbsp; N\u00e3o conhecia essa classifica\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, esse esfor\u00e7o de pens\u00e1-lo inscrito n\u00e3o na neutralidade, mas no mundo f\u00edsico, com suas falhas e irregularidades. Nunca me interessei pelo que se tornam as utopias quando s\u00e3o materialmente realizadas.&nbsp; Mas com Maria Alice, eu sabia. 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