{"id":477,"date":"2022-04-13T00:43:00","date_gmt":"2022-04-13T00:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/?p=477"},"modified":"2025-12-19T00:48:24","modified_gmt":"2025-12-19T00:48:24","slug":"mascaras-espelhos-e-telas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/en\/mascaras-espelhos-e-telas\/","title":{"rendered":"M\u00e1scaras, espelhos e telas"},"content":{"rendered":"<p>Morava com minha fam\u00edlia num sub\u00farbio californiano. Era uma tarde ensolarada e mon\u00f3tona de domingo. Estava sozinha em casa com meu pai. Tinha sete anos. Naquela tarde modorrenta com aquela atmosfera desolada dos domingos, os domingos de rituais chatos, de vida acanhada, de pulsa\u00e7\u00e3o lenta, eu perambulava pela casa iguais a tantas outras da rua classe m\u00e9dia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao entrar no banheiro, me avistei no grande espelho sobre a pia. Vi uma menina p\u00e1lida com longos cabelos castanhos. N\u00e3o me reconheci. Ensaiava um gesto que a menina do espelho replicava. Mas n\u00e3o era eu. Ent\u00e3o onde estava eu se minha imagem era id\u00eantica a mim e, entretanto, era outra? Meu grito sequer ecoou na pasmaceira daquela rua de casas avarandadas, jardins com grelhas de barbecue, garagens com carr\u00f5es e crian\u00e7as andando de bicicleta. Em mim algo se espantou. Aquele dilaceramento parecia despropositado no sub\u00farbio acomodado americano dos anos 1960, numa Calif\u00f3rnia que tanto acalentava e simbolizava o American Dream.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas d\u00e9cadas mais tarde, em 2020, estava sentada na frente do computador em pleno in\u00edcio da pandemia da covid 19. Retida num apartamento-bunker pela quarentena, minha comunica\u00e7\u00e3o com o mundo se dava por meio de telas e m\u00e1scaras digitais da comunica\u00e7\u00e3o cibern\u00e9tica. A pandemia nos atingia num Brasil desmontado, brutalizado, sucateado. As mortes por covid se avolumavam. As tardes eram desgastadas no coro desencontrado de vozes e batucadas em panelas daqueles que gritavam seu rep\u00fadio ou apoio ao presidente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pela janela avistava trechos da cidade que tanto almejava. Mas os odores, o tacto e a tangibilidade do estar na rua eram vetados. Dava confer\u00eancias no v\u00e1cuo, somente meu powerpoint e meu rosto refletidos na tela. O estranhamento com minha pr\u00f3pria face que eu experimentara quando crian\u00e7a, a percep\u00e7\u00e3o angustiosa de ser uma m\u00e1scara ou de estar descolada do meu corpo agora se transformava numa pr\u00e1tica perform\u00e1tica para milhares de usu\u00e1rios. Em pluralidade de aplicativos sociais, as pessoas se inventam em imagens. As trocas sociais de interc\u00e2mbios de m\u00e1scaras digitais se plasmam contra uma experi\u00eancia esmirrada. Uma breve pausa presencial logo se transforma em imagem. Essa era uma das inquieta\u00e7\u00f5es do surrealista, Andr\u00e9 Breton. O encolhimento da experi\u00eancia e o cotidiano anestesiado em voyeur\u00edstico consumismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>2022, ano em que se repensam os modernismos brasileiros e o bicenten\u00e1rio da independ\u00eancia em meio ao cen\u00e1rio de aguda incerteza, polariza\u00e7\u00f5es, mis\u00e9ria social, estagna\u00e7\u00e3o, deterioro, infla\u00e7\u00e3o, devasta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e guerra na Europa. Os excessos e a folia sob o signo de Momo eram anualmente expurgados na Semana Santa. Agora, por conta da pandemia da covid 19, a festan\u00e7a \u00e9 deslanchada depois. A rua est\u00e1 novamente habitada e vibrante em meio aos cacarecos de lixo, pessoas, ru\u00ednas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Relembro as m\u00e1scaras de carnaval, as minhas e as que foram celebradas por artistas. O carnaval de 1919 depois da gripe espanhola e o fim da primeira guerra mundial reputado com a maior e mais excessiva festan\u00e7a em toda a hist\u00f3ria do Rio de Janeiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No miolo da multid\u00e3o suarenta, o corpo dan\u00e7ante e a face mascarada vibram na gota de tempo da epifania ef\u00eamera. O beijo entre dois mascarados an\u00f4nimos cobertos de purpurina, suor e plumas coloridas. Com olhos fechados e bocas entrela\u00e7adas, seus corpos s\u00e3o amalgamados no abra\u00e7o da multid\u00e3o. Por qu\u00ea evoco esse beijo hipot\u00e9tico entre gente mascarada? Nostalgia? Saudades de experi\u00eancias vividas? Lembran\u00e7as de encontros inesperados no espa\u00e7o p\u00fablico? Nostalgia do maravilhoso quando pousava suas asas de borboleta no ombro de uma senhora gorda vestida de lycra esperando o \u00f4nibus. Quando piscava numa po\u00e7a espelhada numa rua cinzenta ou quando se enroscava como uma echarpe fina ao redor do pesco\u00e7o de est\u00e1tuas esquecidas do parque publico que pareciam chorar.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morava com minha fam\u00edlia num sub\u00farbio californiano. Era uma tarde ensolarada e mon\u00f3tona de domingo. Estava sozinha em casa com meu pai. Tinha sete anos. 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