{"id":467,"date":"2023-09-28T23:51:00","date_gmt":"2023-09-28T23:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/?p=467"},"modified":"2025-12-19T00:23:05","modified_gmt":"2025-12-19T00:23:05","slug":"em-busca-de-imagens-maes-martires-e-herois-no-monumento-a-los-heroes-em-bogota-colombia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/en\/em-busca-de-imagens-maes-martires-e-herois-no-monumento-a-los-heroes-em-bogota-colombia\/","title":{"rendered":"Em busca de imagens: M\u00e3es, m\u00e1rtires e her\u00f3is no Monumento a los H\u00e9roes em Bogot\u00e1, Col\u00f4mbia"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"936\" height=\"600\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-468\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture-1.png 936w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture-1-300x192.png 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture-1-768x492.png 768w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture-1-18x12.png 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture-1-750x481.png 750w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture-1-550x353.png 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 936px) 100vw, 936px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: RCN Radio<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Meu t\u00edtulo come\u00e7a com estas palavras: \u201cEm busca de imagens\u201d. Algu\u00e9m poderia se perguntar por que precisamos de mais imagens nestes tempos em que a comunica\u00e7\u00e3o de massa est\u00e1 repleta de imagens. Por que estou procurando por mais imagens em um momento em que somos confrontados e at\u00e9 mesmo sobrecarregados com a superexposi\u00e7\u00e3o de imagens no notici\u00e1rio, nas redes sociais e na publicidade? N\u00e3o seria contraintuitivo reivindicar a busca de imagens quando, justamente , essa superexposi\u00e7\u00e3o parece nos impedir de enxergar nitidamente. Hoje quero que exercitemos nossa vis\u00e3o, nossos olhos, nosso olhar. Tornou-se um lugar-comum ouvir nos meios acad\u00eamicos e art\u00edsticos que devemos deslocar a vis\u00e3o porque ela tem sido o sentido privilegiado desde o Iluminismo. Quero argumentar hoje que \u00e9 mais urgente n\u00e3o descolar nosso olhar, mas coloc\u00e1-lo de uma maneira diferente. E a \u00fanica maneira de fazer isso \u00e9 ver em detalhes as imagens que se repetem, que est\u00e3o superexpostas. Nesse caso, quero agu\u00e7ar nosso olhar para os monumentos que s\u00e3o figuras cruciais nas negocia\u00e7\u00f5es est\u00e9tico-pol\u00edticas que ocorrem durante greves e manifesta\u00e7\u00f5es sociais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos nos situar no surgimento da greve colombiana que come\u00e7ou em 28 de abril de 2021. A greve come\u00e7ou como uma resposta \u00e0 reforma tribut\u00e1ria proposta pelo governo de Iv\u00e1n Duque (2018-2022), mas se tornou uma manifesta\u00e7\u00e3o coletiva de inconformidade com o projeto de Estado-na\u00e7\u00e3o, com o conflito armado e a brutalidade militar e policial que continua a sustentar a desigualdade econ\u00f4mica e social na Col\u00f4mbia. Pessoas de todo o pa\u00eds se organizaram para protestar, incluindo estudantes universit\u00e1rios e secundaristas, sindicatos de trabalhadores, movimentos amer\u00edndios organizados sob o nome de Guardia Ind\u00edgena, popula\u00e7\u00e3o afro colombiana e coletivos feministas que foram \u00e0s ruas para se manifestar contra o governo por pelo menos dois meses.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em um momento em que a pandemia era devastadora, diferentes setores da popula\u00e7\u00e3o colombiana se encheram do que Miguel Rojas Sotelo e Laura Quintana chamaram de \u201cDigna rabia\u201d \u2014 ecoando o Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (EZLN). Em conson\u00e2ncia com suas posturas, concordo que essa greve adquiriu uma dimens\u00e3o est\u00e9tico-pol\u00edtica que \u00e9 importante destacar. Al\u00e9m disso, a forma como a greve foi registrada n\u00e3o teve precedentes na hist\u00f3ria do pa\u00eds. Durante mais de um m\u00eas, no Facebook e no TikTok, foram gravados v\u00eddeos ao vivo dos protestos em diferentes cidades. Nesses v\u00eddeos, ao contr\u00e1rio da maneira como os protestos eram visualizados nos dias passados, adquirimos o ponto de vista n\u00e3o do jornalista, mas do manifestante. Foi um movimento social superexposto em termos de visualidade. Assistimos a imagens de raiva, inconformidade e luta nos espa\u00e7os dom\u00e9sticos e sem o enquadramento habitual com o qual estamos acostumados a assistir, que \u00e9 o notici\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o apenas isso, mas um outro elemento em que a visualidade foi alterada durante esse protesto foi a derrubada de monumentos e est\u00e1tuas em todo o pa\u00eds. Em 7 de maio, depois de uma semana do in\u00edcio da greve, a est\u00e1tua de Gonzalo J\u00edmenez de Quesada, explorador e colonizador espanhol, tamb\u00e9m conhecido como \u201cfundador de Bogot\u00e1\u201d, foi derrocada por um membro do Misak, um povo amer\u00edndio colombiano. Esse fato n\u00e3o \u00e9 in\u00e9dito. Em 16 de setembro de 2020, em Popay\u00e1n, no sudoeste da Col\u00f4mbia, os ind\u00edgenas Misak derrocaram uma est\u00e1tua equestre de Sebasti\u00e1n de Bel\u00e1lcazar, tamb\u00e9m reconhecido como um \u201cconquistador\u201d e militar espanhol que fundou as cidades de Quito e Guyaquil. Em Cali, um dos epicentros da greve colombiana em 2021, outra est\u00e1tua de Bel\u00e1lcazar tamb\u00e9m foi derrubada pelos Misak.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No gesto por tr\u00e1s dessas a\u00e7\u00f5es, h\u00e1 uma inten\u00e7\u00e3o de alterar a visualidade do espa\u00e7o p\u00fablico da cidade. Esses monumentos cumprem o papel de heroificar um indiv\u00edduo que foi um colonizador e promoveu o exterm\u00ednio dos povos amer\u00edndios, bem como o com\u00e9rcio transatl\u00e2ntico de escravizados. Parece f\u00e1cil, ent\u00e3o, entender a \u201cdigna rabia\u201d dos Misak. De certa forma, os manifestantes queriam mudar a hist\u00f3ria: reescrevendo ou revisando, em um gesto iconoclasta, a paisagem que exaltava essas figuras colonialistas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que quero trazer uma figura mais complicada que interveio durante essa greve: o Monumento aos Her\u00f3is (Monumento a Los H\u00e9roes), inaugurado em 1963, projetado pelo arquiteto italiano Emilio Mazzoni e com uma est\u00e1tua equestre de Sim\u00f3n Bol\u00edvar \u2014 projetada pelo escultor franc\u00eas Emmanuel Fr\u00e9miet. Esse foi um monumento constru\u00eddo em mem\u00f3ria dos soldados de diferentes grupos armados que participaram da independ\u00eancia dos pa\u00edses bolivarianos e foi considerado Patrim\u00f4nio Cultural e Bem de Interesse P\u00fablico para o pa\u00eds. Em um primeiro momento, \u00e9 um monumento que comemora a independ\u00eancia da coloniza\u00e7\u00e3o e mostra a divis\u00e3o entre o per\u00edodo colonial e o republicano. Ele destaca os \u201cH\u00e9roes de la Patria\u201d. Os her\u00f3is da independ\u00eancia, que s\u00e3o os militares, s\u00e3o considerados her\u00f3is no discurso nacional. O mesmo sentimento de hero\u00edsmo que est\u00e1 por tr\u00e1s do status dos colonizadores parece ser reproduzido na visualidade desse monumento aos her\u00f3is da independ\u00eancia que foram m\u00e1rtires da p\u00e1tria.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"468\" height=\"312\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-469\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture2.jpg 468w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture2-300x200.jpg 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture2-18x12.jpg 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 468px) 100vw, 468px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Comisi\u00f3n F\u00edlmica de Bogot\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Permitam-me fazer algumas perguntas que me possibilitem desenvolver a associa\u00e7\u00e3o que estou propondo entre a no\u00e7\u00e3o de m\u00e1rtir, her\u00f3i, coloniza\u00e7\u00e3o, independ\u00eancia e revolu\u00e7\u00e3o. Como o sentimento patri\u00f3tico de independ\u00eancia pode assemelhar-se ao discurso de utopia da esquerda dos anos 1960 e 1970 e ainda estar enraizado nos movimentos sociais que vemos hoje na Am\u00e9rica Latina? Quais s\u00e3o as resson\u00e2ncias desses \u201cher\u00f3is da independ\u00eancia\u201d com os her\u00f3is da utopia de esquerda que ainda vemos reproduzidos nas greves da Am\u00e9rica Latina? Por fim, como essas conex\u00f5es abrem a possibilidade de buscar outras imagens de revolta, greve e revolu\u00e7\u00e3o \u2014 sem a necessidade da figura do her\u00f3i e do m\u00e1rtir?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em Planetary Longings (2022), Mary Louise Pratt reivindica \u201ca cria\u00e7\u00e3o de um conjunto diferente de indicadores, uma infraestrutura epist\u00eamica que seja, se n\u00e3o descolonizada, pelo menos descolonizadora\u201d (2022, p. 241, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Esse desejo de romper com as estruturas coloniais est\u00e1 presente justamente porque autores como ela, Silvia Rivera Cusicanqui, Luis Camnitzer, entre outros, concordam que a colonialidade tem sido reproduzida de formas complexas e mais do que bin\u00e1rias em todo o mundo. Por exemplo, de acordo com Cusicanqui, houve o que ela chama de \u201crecoloniza\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o apenas no \u00e2mbito do Estado e da economia, mas tamb\u00e9m no \u00e2mbito acad\u00eamico: \u201creciclagem das elites e a continuidade de seu monop\u00f3lio no exerc\u00edcio do poder\u201d (2010, p. 46). Ela se posiciona de forma contr\u00e1ria a conceitualiza\u00e7\u00e3o de colonialidade de Walter Mignolo encoberta e protegida pela academia norte-americana, de modo que, em suas palavras, acabou tornar-se uma \u201cvers\u00e3o logoc\u00eantrica e nominalista da descoloniza\u00e7\u00e3o\u201d (2010, p. 64). \u00c9 poss\u00edvel ler o monumento como uma recoloniza\u00e7\u00e3o?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Gostaria de colocar que, observando a interven\u00e7\u00e3o nos monumentos durante as manifesta\u00e7\u00f5es, podemos cruzar a divis\u00e3o colonial que separa o per\u00edodo da hist\u00f3ria colonial, o republicano e os que s\u00e3o rotulados como revolucion\u00e1rios, caracter\u00edsticos do s\u00e9culo XX na Am\u00e9rica Latina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar na rela\u00e7\u00e3o entre est\u00e9tica e pol\u00edtica que parece ser caracter\u00edstica dos pa\u00edses coloniais, especificamente no s\u00e9culo XX e, particularmente, tend\u00eancia nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970 com os manifestos que estavam sendo produzidos na Am\u00e9rica Latina, nos quais a c\u00e2mera era considerada uma arma contra o \u201cneocolonialismo\u201d. Em uma linha diferente, d\u00e9cadas depois, Albie Sachs, em um artigo que apresentou no Congresso Nacional Africano em 1990, prop\u00f5e \u201cbanir\u201d o ditado que diz que \u201carma \u00e9 uma cultura de luta\u201d (1990, p. 19, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Quais s\u00e3o as tens\u00f5es embutidas nessa rela\u00e7\u00e3o entre est\u00e9tica e pol\u00edtica na mistura transcultural, nos museus, nas institui\u00e7\u00f5es, no mercado, na academia? Eu diria que, seguindo as recomenda\u00e7\u00f5es de Cusicanqui e Pratt para uma pr\u00e1tica descolonizadora \u2014 em vez de uma disciplina ou um conjunto de conceitos \u2014, poder\u00edamos rastrear como ver e nos envolver com as express\u00f5es culturais em objetos que permanecem n\u00e3o descobertos ou ileg\u00edveis. Isso nos permitiria ir al\u00e9m do bin\u00e1rio simplista do \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d, do colonizado e do colonizador, do pr\u00e9 hisp\u00e2nico e do europeu \u2014 dualidades que dominam os termos da discuss\u00e3o sobre a transcultura\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, que outros encontros estamos deixando de lado? E como chegar at\u00e9 eles abrir\u00e1 possibilidades de tra\u00e7ar uma pol\u00edtica na est\u00e9tica que supere esse conjunto de dicotomias?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em resposta a essa grande quest\u00e3o, e para voltar ap\u00f3s essa digress\u00e3o sobre arte, imagens e colonialidade, considero as interven\u00e7\u00f5es no Monumento aos Her\u00f3is (Monumento a Los H\u00e9roes), durante a Greve Nacional Colombiana cruciais para entender a colonialidade, a luta, a pol\u00edtica e a est\u00e9tica. O Monumento aos Her\u00f3is (Monumento a Los H\u00e9roes) torna evidente a associa\u00e7\u00e3o entre her\u00f3is e guerra, entre her\u00f3is e militares, entre her\u00f3is e uma l\u00f3gica de guerra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo livro de Mary Louise Pratt, ao qual me referi anteriormente, ela faz uma reex\u00e3o sobre o que chama de \u201cThe Ghosts in the Plaza de la Tinta\u201d em Tinta, Peru. Um dos fantasmas \u00e9 a est\u00e1tua de bronze de T\u00fapac Amaru, como o \u201ch\u00e9roe de la patria\u201d e, como ela observa, Micaela Bastidas, sua esposa, copart\u00edcipe e estrategista militar, \u00e9 representada \u201cde joelhos, atr\u00e1s do marido, na mesma altura da crian\u00e7a\u201d (2022, p. 237, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Pratt discorre sobre como esse monumento esconde um gesto patriarcal e, ao mesmo tempo, heroiciza uma figura ind\u00edgena contra o colonialismo. Aqui, Pratt pondera como a no\u00e7\u00e3o de her\u00f3i \u2014 que \u00e9 paralela \u00e0 no\u00e7\u00e3o de salvador masculino \u2014 \u00e9 atravessada pela colonialidade e pelo patriarcado. O que essa imagem de T\u00fapac Amar\u00fa nos diz sobre os Her\u00f3is da Independ\u00eancia da Col\u00f4mbia? Como as imagens dos her\u00f3is da independ\u00eancia tamb\u00e9m se relacionam com os her\u00f3is da revolu\u00e7\u00e3o?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Retornemos a 2021. Enquanto em Bogot\u00e1 o centro da cidade \u00e9 o local de aflu\u00eancia, dessa vez, esse monumento se tornou um dos epicentros da greve. Esse monumento sofreu interven\u00e7\u00f5es de diferentes maneiras, com grates e performances durante dois meses. Quem s\u00e3o os 6402 her\u00f3is que est\u00e3o cobrindo ou reescrevendo os her\u00f3is da Independ\u00eancia?&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"936\" height=\"526\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-470\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-1.jpg 936w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-1-18x10.jpg 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-1-750x421.jpg 750w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-1-550x309.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 936px) 100vw, 936px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Colprensa \u2013 \u00c1lvaro Tavera<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Para entender essa inscri\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante relembrar a hist\u00f3ria dessa edifica\u00e7\u00e3o. Esse monumento ficava no cruzamento de duas grandes avenidas de Bogot\u00e1: a Avenida Caracas e a Calle 80. Foi planejado em 1952, durante o governo de Laureano G\u00f3mez, como uma homenagem aos soldados colombianos que estavam na Guerra da Coreia, no contexto da Guerra Fria. Ap\u00f3s o golpe de Estado em 1953, Gustavo Rojas Pinilla, o militar que assumiu o governo, mudou o plano e decidiu usar o local para construir um monumento em homenagem aos soldados que morreram durante as guerras pela independ\u00eancia. Consistia em uma torre de pedra retangular de 60 metros com as inscri\u00e7\u00f5es dos nomes de diferentes soldados. A torre tinha uma sala museu em seu interior que fazia parte do Museu Distrital de Bogot\u00e1. No lado norte, havia uma est\u00e1tua equestre de Sim\u00f3n Bol\u00edvar, na qual havia uma inscri\u00e7\u00e3o em latim \u2014 parte do testemunho pol\u00edtico de Sim\u00f3n Bol\u00edvar: \u201cColombianos! Meus \u00faltimos votos s\u00e3o para a felicidade do pa\u00eds. Se minha morte contribuir para o fim dos partidos e a consolida\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o, descerei ao t\u00famulo em paz\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por que, no contexto da greve colombiana, a popula\u00e7\u00e3o decidiu fazer um grfiate no monumento com \u201c6402 her\u00f3is\u201d? A JEP (Jurisdi\u00e7\u00e3o Especial de Paz), em fevereiro de 2021 \u2014 dois meses antes do in\u00edcio da greve \u2014 publicou um documento estabelecendo que, durante o governo de \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez, entre 2002 e 2008, pelo menos 6.402 civis foram mortos pelos militares e falsamente passados como combatentes inimigos. Embora diferentes ve\u00edculos da imprensa e jornalistas independentes tenham denunciado essas execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais conhecidas como Falsos Positivos durante anos, foi apenas em 2021 que uma institui\u00e7\u00e3o do Estado as reconheceu. Soacha, uma cidade pr\u00f3xima a Bogot\u00e1, foi um dos diferentes locais onde menores de idade foram sequestrados e mortos pelos militares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Parte das pessoas que se reuniram em torno do monumento durante a greve eram, em sua maioria, jovens estudantes, tanto de universidades quanto de escolas de ensino m\u00e9dio, e jovens que, devido \u00e0 precariedade do sistema educacional, n\u00e3o tiveram acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal. Quando a n\u00famero se tornou p\u00fablico, em toda Bogot\u00e1 pudemos encontrar esses panfletos com a legenda: \u201cQuem deu a ordem?\u201d E com alguns dos rostos dos l\u00edderes militares atuais. Para denunciar, os manifestantes intervieram com o n\u00famero seguido da palavra \u201cHeroes\u201d. Como Jean Franco observa em Cruel Modernity, \u201co discurso crist\u00e3o e o revolucion\u00e1rio compartilham o ideal do sacrif\u00edcio\u201d (2013, p. 138, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Considerando o cristianismo como uma ferramenta importante para exercer o poder durante o per\u00edodo colonial, o sacrif\u00edcio seria o la\u00e7o que parece conectar coloniza\u00e7\u00e3o, independ\u00eancia e a revolu\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dias depois que as fotos do monumento com a interven\u00e7\u00e3o foram compartilhadas nas redes sociais, a MAFAPO (Madres Falsos Positivos de Colombia) publicou um tweet dizendo \u201cNossos filhos n\u00e3o s\u00e3o her\u00f3is, eles s\u00e3o v\u00edtimas\u201d. As m\u00e3es estavam contestando a forma como os manifestantes estavam intervindo nos monumentos, fazendo aquilo que elas estavam criticando, reproduzindo a l\u00f3gica b\u00e9lica do her\u00f3i-m\u00e1rtir que est\u00e1 por tr\u00e1s da organiza\u00e7\u00e3o militar e revolucion\u00e1ria. E, especificamente, mostra como as m\u00e3es estavam observando atentamente a interven\u00e7\u00e3o no monumento. A no\u00e7\u00e3o de her\u00f3i \u00e9 materializada aqui tanto no monumento quanto em sua interven\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, os jovens executados pelos militares s\u00e3o considerados m\u00e1rtires e her\u00f3is da mesma forma que os soldados que faleceram durante as guerras de independ\u00eancia. Em uma esp\u00e9cie de opera\u00e7\u00e3o sinistra, Bel\u00e1lcazar e Sim\u00f3n Bolivar s\u00e3o vinculados e equiparados a MAFAPO (Madres Falsos Positivos de Colombia). O monumento, ent\u00e3o, se torna um local complexo no qual diversas facetas da greve s\u00e3o expostas: a cr\u00edtica ao colonizador europeu, a avers\u00e3o aos militares e ao Estado-na\u00e7\u00e3o, a heroiza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas do mesmo Estado e, finalmente, a resposta das M\u00e3es.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Dias depois do tweet, o monumento foi alterado. A palavra \u201cher\u00f3is\u201d foi coberta com um punho e em uma das grades da avenida pod\u00edamos ler: \u201c6402 motivos\u201d. A contesta\u00e7\u00e3o das M\u00e3es pelo Twitter possibilitou a negocia\u00e7\u00e3o de significados entre os manifestantes por meio do monumento. Esse monumento se tornou um material vivo para a greve em que a est\u00e9tica interveio na pol\u00edtica. Enquanto a imprensa exibia essas a\u00e7\u00f5es para \u201cvandalizar a arte p\u00fablica\u201d, a greve revelou como essas interven\u00e7\u00f5es tornaram poss\u00edveis e leg\u00edveis as maneiras pelas quais a colonialidade se transp\u00f5e na forma como lutamos e encontramos significados da revolu\u00e7\u00e3o. Dessa forma, as M\u00e3es zeram com que os manifestantes, n\u00f3s, v\u00edssemos melhor como a mesma no\u00e7\u00e3o de her\u00f3is \u00e9 adulterada em um pa\u00eds onde aqueles que s\u00e3o considerados her\u00f3is \u2014 os militares \u2014 s\u00e3o os mesmos que executaram as execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais. Ao mesmo tempo, as M\u00e3es apontaram como, por tr\u00e1s da gura do her\u00f3i-m\u00e1rtir, h\u00e1 uma xa\u00e7\u00e3o no sacrif\u00edcio que pode ser rastreada tanto no colonialismo quanto no per\u00edodo republicano e na utopia da esquerda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estas m\u00e3es me zeram pensar que estamos em busca de outras imagens. N\u00e3o estamos em busca de mais her\u00f3is dispostos a se sacricar pela p\u00e1tria ou pela revolu\u00e7\u00e3o. Em um pa\u00eds profundamente marcado pela morte devido ao conflito armado e ao colonialismo, n\u00e3o precisamos de mais mortes, luto e sepulturas. As mortes n\u00e3o s\u00e3o sacrif\u00edcios para a revolu\u00e7\u00e3o. A interven\u00e7\u00e3o nesse monumento mostra a necessidade de buscar a vida, uma puls\u00e3o de vida e alegria que supere o sofrimento e a crueldade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 2021, passei pelo local onde cava o monumento: ele n\u00e3o existe mais. O governo o demoliu porque seria um dos locais para uma esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 \u2014 um metr\u00f4 que ainda n\u00e3o foi constru\u00eddo. A est\u00e1tua equestre de Bol\u00edvar ser\u00e1 levada para o Parque de la Independencia, um parque \u201cp\u00fablico\u201d com hor\u00e1rio determinado, de dif\u00edcil acesso e com bares ao redor. Naquele momento ef\u00eamero, em que a demoli\u00e7\u00e3o e a realoca\u00e7\u00e3o da est\u00e1tua foram feitas, vemos o cavalo livre do cavaleiro, Sim\u00f3n Bol\u00edvar. Parece um press\u00e1gio, ou uma confirma\u00e7\u00e3o do press\u00e1gio provavelmente assinado quando os Misak derrubaram as est\u00e1tuas dos colonizadores. O cavalo est\u00e1 livre de seu dono, seu her\u00f3i. Este momento de revolta parece ser crucial a esse novo olhar que o monumento \u2014 e a interven\u00e7\u00e3o das pessoas durante a greve \u2014 quer invocar. Vamos deslocar nosso olhar para revelar as maneiras pelas quais algumas guras \u2014 como o her\u00f3i e o m\u00e1rtir \u2014 permeiam a forma como nos revoltamos e reivindicamos nossos direitos, vida e justi\u00e7a. Essas M\u00e3es estavam observando a necessidade de vitalidade na maneira como nos rebelamos. Vitalidade \u00e9 o que esse monumento, mesmo que agora tenha desaparecido, mostrava. Vitalidade s\u00e3o as ruas cheias de pessoas. Vitalidade \u00e9 preencher os espa\u00e7os em branco do monumento por meio do di\u00e1logo e preencher os espa\u00e7os p\u00fablicos com arengas, dan\u00e7a e som. Talvez esse monumento tenha exigido o que as m\u00e3es veem, e a utopia da esquerda n\u00e3o: precisamos buscar a vida, n\u00e3o queremos mais m\u00e1rtires, n\u00e3o queremos mais imagens heroicas. Talvez o que queremos, o que buscamos, \u00e9 aquele momento em que o cavalo se liberta do her\u00f3i, \u00e9 aquele movimento que marca uma puls\u00e3o de vida contra toda necropol\u00edtica e contra toda necronarrativa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cusicanqui, Silvia Rivera (2010). Ch\u2019ixinakax utxiwa : una reflexi\u00f3n sobre pr\u00e1cticas y discursos descolonizadores. Tinta Lim\u00f3n.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Franco, Jean. (2013) Cruel Modernity. Duke University Press.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pratt, Mary Louise. (2022) Planetary Longings. Duke University Press.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sachs, Albie. (1990). Spring is Rebellious : Arguments about Cultural Freedom. Buchu Books.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu t\u00edtulo come\u00e7a com estas palavras: \u201cEm busca de imagens\u201d. Algu\u00e9m poderia se perguntar por que precisamos de mais imagens nestes tempos em que a comunica\u00e7\u00e3o de massa est\u00e1 repleta de imagens. 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