{"id":459,"date":"2023-09-27T23:22:00","date_gmt":"2023-09-27T23:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/?p=459"},"modified":"2025-12-18T23:31:17","modified_gmt":"2025-12-18T23:31:17","slug":"a-brasilia-de-poeira-e-de-esperanca-cartas-de-uma-capital-em-construcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/en\/a-brasilia-de-poeira-e-de-esperanca-cartas-de-uma-capital-em-construcao\/","title":{"rendered":"A Bras\u00edlia \u201cde Poeira e de Esperan\u00e7a\u201d: Cartas de uma Capital em Constru\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>No dia 7 de julho de 1960, Jos\u00e9 Augusto Nascimento Guerra foi aos Correios. Tinha nas m\u00e3os um punhado de folhas datilografadas que seguiriam viagem at\u00e9 Recife, a pouco mais de dois mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, onde encontrariam Rildacy, Ana e Kido, sua esposa e filhos pequenos. Chegou ao balc\u00e3o e abriu as folhas dobradas ao meio, apoiando os dedos no canto superior direito do papel. Ao retir\u00e1-los, viu duas marcas: suas digitais, perfeitamente impressas em um vermelho-alaranjado na superf\u00edcie em branco. Pegou a caneta, desenhou uma seta e escreveu: \u201cessa \u00e9 a cor da poeira do balc\u00e3o dos Correios\u201d. O contexto viria algumas linhas depois, escritas algumas horas mais cedo: \u201cA \u00e1rea entre os edif\u00edcios \u00e9 areia vermelha no duro. Um ventinho qualquer e a poeira entra pela cara da gente. Cara, roupas, bolsos, cabelos, boca. Imagine-se naquelas cidades sem cal\u00e7ada nem cal\u00e7amento e areia solta. Assim \u00e9 onde moramos\u201d. Dois dias antes, Jos\u00e9 havia chegado em Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>A carta come\u00e7a assim:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Minha D\u00e1cy,<br>aquele corre-corre e faz isso e aquilo da mudan\u00e7a, iniciada a\u00ed, ainda<br>prossegue. Cheguei \u00e0s 9 horas de ter\u00e7a-feira, peguei as chaves logo depois e contratei com alguns dos homens da mudan\u00e7a que poder\u00edamos come\u00e7ar \u00e0 1 hora da tarde. Almocei no SAPS a 120,00 com sobremesa. Gente de enganchar. Comida razo\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 1 hora quei de papel na m\u00e3o registrando as entradas. Tudo certo, sem<br>faltar nada. Dei logo de beber \u00e1gua \u00e0 planta grande e \u00e0 pequena. A outra, do jarro novo, onde cou? Voc\u00ea deu \u00e0 Tita? Ajudei os homens a desmontar os caix\u00f5es de lou\u00e7as. E l\u00e1 pelas 4 da tarde, tudo pronto, espalhado no ch\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"850\" height=\"412\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-460\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture1.png 850w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture1-300x145.png 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture1-768x372.png 768w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture1-18x9.png 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture1-750x364.png 750w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture1-550x267.png 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 850px) 100vw, 850px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Foi assim que minha fam\u00edlia chegou a Bras\u00edlia. Bem, parte dela. Jos\u00e9 Augusto Guerra era meu av\u00f4 paterno, pai do Kido, um apelido mais apropriado para uma crian\u00e7a de um ano que o nome de batismo Euclides Augusto, dado em homenagem aos av\u00f3s. Meu outro av\u00f4, pai da minha m\u00e3e, um outro Jos\u00e9, engenheiro da Novacap, chegou \u00e0 rec\u00e9m-nascida capital do Brasil tamb\u00e9m nessa \u00e9poca. Mas dessas cartas n\u00e3o tenho not\u00edcias. Dizem minhas tias que minha av\u00f3 as teria jogado fora, de raiva. Mas essa \u00e9 uma outra hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso Jos\u00e9, o Guerra, era funcion\u00e1rio da C\u00e2mara dos Deputados, como denuncia o selo do canto superior esquerdo de v\u00e1rias das correspond\u00eancias, e foi realocado na nova sede do governo poucos meses ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o, seguindo a \u201copera\u00e7\u00e3o mudan\u00e7a\u201d dirigida pelo deputado Neiva Moreira, conforme anunciado em 26 de julho de 1960 pelo Correio Braziliense.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"396\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture2-1024x396-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-461\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture2-1024x396-1.png 1024w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture2-1024x396-1-300x116.png 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture2-1024x396-1-768x297.png 768w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture2-1024x396-1-18x7.png 18w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture2-1024x396-1-750x290.png 750w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture2-1024x396-1-550x213.png 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A mat\u00e9ria destaca a precariedade em termos de acomoda\u00e7\u00f5es e transporte com que os funcion\u00e1rios do Legislativo se deparavam quando chegavam ao Planalto Central, e que meu av\u00f4 experimentou em primeira m\u00e3o e narrou com um certo tom rom\u00e2ntico que logo se transformou em fastio. Pouco antes de se tornar um inc\u00f4modo, a aus\u00eancia de persianas no apartamento, por exemplo, foi narrada da seguinte maneira, na carta de 7 de julho: \u201cNo dia seguinte, quem me acordou foi o clar\u00e3o do apartamento. O sol a gente v\u00ea nascer. E eu o vi bem ontem: foi crescendo devagarinho, levantando-se e daqui a pouco todos os quartos e sala ficaram daquele jeito. Aqui o IAPC n\u00e3o instalou persianas. O sol bate de rijo, violento. Muito bom mesmo.\u201d A carta segue:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O objetivo agora \u00e9 aprontar o apartamento. Uma desordem. A empresa construtora ainda n\u00e3o havia liberado o apartamento. Portanto encontrei-o incrivelmente sujo, sujo de constru\u00e7\u00e3o rec\u00e9m-conclu\u00edda, tudo sujo mesmo, nem passar a vassoura passaram. Ainda n\u00e3o haviam testado nem a \u00e1gua nem luz nem g\u00e1s. Agora est\u00e3o consertando os tacos soltos, devido ao sol intenso. O bombeiro da empresa (por enquanto, at\u00e9 a entrega do edif\u00edcio que ainda est\u00e1 com os corredores e \u00e1rea de baixo \u00e0s escuras) est\u00e1 aqui. Deu engui\u00e7o no chuveiro, na pia, no aquecedor, na porta da cozinha, no banheiro da empregada. Em quase tudo. E eu ainda com tudo desarrumado. Que coisa s\u00e9ria essa hist\u00f3ria de mudan\u00e7a!<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de persianas, faltava uma s\u00e9rie de outras coisas, como Jos\u00e9 conta em carta do dia 18 de julho, aparentemente respondendo a um pedido ansioso de minha av\u00f3 para que ele falasse de Bras\u00edlia com realismo e explicando como era a vida na nova cidade \u2013 que, como ele mesmo escreve, \u201ccidade mesmo n\u00e3o existe. Est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o\u201d:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Voc\u00ea me pede que lhe fale, com realismo, sobre Bras\u00edlia. Creio que uma semana \u00e9 suficiente para sentir a nova capital e a outra semana para analisar-lhe o funcionamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Em princ\u00edpio, tudo est\u00e1 surgindo aos poucos. (\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 leite de vaca em Bras\u00edlia. Uma carrocinha passava sempre \u00e0s 7 horas, mas a pol\u00edcia sanit\u00e1ria deu em cima e acabou. Tinha \u00e1gua. Espera-se que a CCPPL ou outra empresa qualquer resolva trazer sua organiza\u00e7\u00e3o para Bras\u00edlia. Por enquanto, uma empresa desse tipo n\u00e3o d\u00e1 lucro. O consumo n\u00e3o ser\u00e1 suciente para cobrir os gastos de instala\u00e7\u00e3o e despesas de empregados. E por isso, ainda por certo tempo, n\u00e3o sei quando (a n\u00e3o ser que o pr\u00f3prio governo instale a usina de pasteuriza\u00e7\u00e3o) n\u00e3o teremos leite bom, de vaca. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o Ninho. \u00c9 o que tenho feito. O pre\u00e7o varia de 94 a Cr$ 100 a lata pequena. Aquele sol\u00favel n\u00e3o apareceu aqui. Mas a composi\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma do Ninho.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre p\u00e3o, ontem descobri na W-3 (rua do Com\u00e9rcio) uma padaria que entrega a domic\u00edlio. Dei meu nome. No come\u00e7o, 2 p\u00e3es pequenos a Cr$ 3,00 cada um. O p\u00e3o daqui n\u00e3o \u00e9 ruim n\u00e3o. Bolachas, biscoitos, etc n\u00e3o faltam.<\/p>\n\n\n\n<p>Carne. Come\u00e7a a tornar-se um problema s\u00e9rio. A Novacap s\u00f3 disp\u00f5e de um supermercado, que fica a 15 ou 20 minutos daqui de casa. Ora, segundo os entendidos, cada supermercado deve atender a uma procura di\u00e1ria de 2 000 pessoas. Mas h\u00e1 tanta gente chegando que s\u00e1bado, conversando com um dos gerentes do mercado, ele me disse que perto de 6 000 pessoas est\u00e3o comprando diariamente. A solu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o de outro super ou ent\u00e3o que a iniciativa privada comece a fazer concorr\u00eancia. \u00c9 o que. est\u00e1 acontecendo. Esta semana j\u00e1 estar\u00e1 em funcionamento a Casa Colorado, aqui na rua do Com\u00e9rcio, com entrega a domic\u00edlio. Mas o que acontece \u00e9 que, quem aparece no balc\u00e3o da carne depois das 9 da manh\u00e3, dificilmente encontra carne que presta. \u00c9 de 2a. para baixo. Nada de l\u00e9, de alcatra, de ch\u00e3-de-dentro. (\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m escassez de legumes, que somente se consegue ou indo cedo ao mercado ou aos s\u00e1bados \u00e0 cidade livre. N\u00e3o posso adiantar-lhe melhor esse ponto, porque ainda n\u00e3o fui de manh\u00e3 ao mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existe feira. (\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>Bem, esta \u00e9 a realidade sobre Bras\u00edlia. Uma cidade que est\u00e1 cheia de problemas, que n\u00e3o funciona a tempo e a hora, que necessita de mercados, de servi\u00e7o de coleta de lixo mais perfeito, de artes\u00e3os que consertem os sapatos, lavem nossa roupa, vendam linha e agulha. Alfaiate \u00e9 fruta rara. Existe um na cidade livre. Barbeiro s\u00f3 existe na C\u00e2mara e engraxate \u00e9 o que se v\u00ea na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu falo em cidade, mas cidade mesmo n\u00e3o existe. Est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o. O com\u00e9rcio propriamente dito fica no eixo monumental, onde constroem a rodovi\u00e1ria, as plataformas rolantes, os restaurantes, os hot\u00e9is, as lojas de alto gabarito. O que se v\u00ea agora \u00e9 com\u00e9rcio de \u00e1rea de vizinhan\u00e7a. (Quatro superquadras formam uma \u00e1rea de vizinhan\u00e7a.) L\u00e1 est\u00e3o trabalhando intensamente (no eixo monumental) mas acredito que somente dentro de 2 anos \u00e9 que tudo estar\u00e1 funcionando.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"850\" height=\"740\" src=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-462\" srcset=\"https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3.png 850w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-300x261.png 300w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-768x669.png 768w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-14x12.png 14w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-750x653.png 750w, https:\/\/arquivosabertoscidades.la\/web\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Picture3-550x479.png 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 850px) 100vw, 850px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fotografia do supermercado no n\u00famero 44 da Revista Bras\u00edlia, agosto de 1960<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Se algumas coisas faltavam, outras, por sua vez, sobravam. Duas, especificamente, parecem definir o que era aquele grande canteiro de obras, e ambas transbordam pelas beiradas das cartas de Jos\u00e9 para Rildacy: poeira e esperan\u00e7a. A primeira, ilustrando \u2013 literalmente, inclusive, como vimos \u2013 a vida no Planalto Central, presen\u00e7a constante tanto no interior do apartamento funcional e da C\u00e2mara quanto nas ruas apenas semi-pavimentadas da nova capital, levantando voo no vento seco do cerrado de julho: \u201cA gente depois cospe e l\u00e1 est\u00e1 o vermelho do p\u00f3. Aqui tenho feito gargarejos de colubiazol. Apenas por precau\u00e7\u00e3o\u201d (carta de 26 de julho). O colubiazol, diga-se de passagem, n\u00e3o preveniu uma infec\u00e7\u00e3o nos br\u00f4nquios do meu av\u00f4, cuja causa foi atribu\u00edda ao excesso de poeira. E a segunda, como moldura subjetiva daquela paisagem que um ano antes Andr\u00e9 Malraux apelidaria de forma certeira de \u201cCapital da Esperan\u00e7a\u201d, que viraria o mote da cidade e povoava o imagin\u00e1rio dos meus av\u00f3s (o outro Jos\u00e9, o Rivera, falava com orgulho sobre como resolveu abandonar sua cidade-natal e ent\u00e3o Distrito Federal para receber metade do sal\u00e1rio na Novacap \u2013 intuindo, com raz\u00e3o, que algum tempo depois veria um bom retorno nanceiro; Bras\u00edlia, anal, era a terra das oportunidades). Para o Guerra, a esperan\u00e7a se estendia tamb\u00e9m ao casamento, e a empreitada de Juscelino Kubitschek \u2013 ou Ju\u00e7a, como ele o chamava nas cartas \u2013 funcionava como uma esp\u00e9cie de met\u00e1fora da vida conjugal:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>E acredito que, aqui nesta Bras\u00edlia ainda em constru\u00e7\u00e3o, Bras\u00edlia de poeira e de esperan\u00e7a, a gente se encontre ainda mais profundamente, enra\u00edze-se mais, tenha mais possibilidades de nos darmos e de nos completarmos, voc\u00ea com essa beleza que n\u00e3o conhe\u00e7o mais bela, essas fei\u00e7\u00f5es de m\u00e3e e de mulher, de minha esposa muito querida, inconfund\u00edvel. \u00c9 que nascemos, agora acredito como antes, bem antes do primeiro encontro, para somente nos pertencermos, minha D\u00e1cy. (carta de 26 de julho)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mas a esperan\u00e7a de uns \u00e9 o desespero de outros, e particularmente, segundo Jos\u00e9, dos cariocas for\u00e7ados a abandonar a \u201cVelhacap\u201d, em suas palavras. Como o bom jornalista que era, meu av\u00f4, nos primeiros dias de Bras\u00edlia, recolhia quantos depoimentos pudesse daqueles que constru\u00edam, literal e metaforicamente, a nova capital, como ele pr\u00f3prio conta. Mas, nas cartas, abandona uma suposta neutralidade e arma com veem\u00eancia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Bras\u00edlia, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, \u00e9 formid\u00e1vel. Tenho conversado com muita gente: candangos, altos funcion\u00e1rios, barnab\u00e9s, donos de lojas, professores que moram nos JK, etc. E, adotando aquela velha t\u00e9cnica jornal\u00edstica de ser baralho, como diz a Ridete, anoto coisas curiosas. Quando me encontro com um desesperado em Bras\u00edlia, ajudo a conversa, dou corda e ou\u00e7o coisas terr\u00edveis. Quando me encontro com um entusiasta, digo: \u201cSe \u00e9 assim que voc\u00ea est\u00e1 dizendo, \u00e9 mesmo formid\u00e1vel. Essa gente que reclama n\u00e3o pode querer que Bras\u00edlia seja o Rio. Assim como seria um absurdo exigir de uma crian\u00e7a de dois anos que pense como se tivesse dez anos. Com o tempo esses defeitos melhoram.\u201d (\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, pondo de lado o baralho, eu acho isso daqui (com vis\u00e3o para o futuro de dez anos para frente, e o que s\u00e3o dez anos?) uma cidade extraordin\u00e1ria. O com\u00e9rcio ser\u00e1 intenso. J\u00e1 existem mais ag\u00eancias banc\u00e1rias do que em Macei\u00f3. E s\u00f3 tem, praticamente, dois meses e meio de idade. (\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>Na C\u00e2mara, as opini\u00f5es se dividem sobre Bras\u00edlia. H\u00e1 quem a deteste (\u2026) A maioria dos cariocas detesta isso aqui. Nancy me disse: \u201cvou fazer qualquer concurso, mesmo de seja l\u00e1 o que for, para voltar para o Rio.\u201d E as express\u00f5es s\u00e3o estas, na C\u00e2mara: \u201cisto \u00e9 o m, um inferno, n\u00e3o se tem conforto, uma tristeza, um miser\u00e1vel esse Juscelino, vou votar no J\u00e2nio, uma desgra\u00e7a como essa n\u00e3o poderia ter acontecido comigo\u201d e coisas desse tipo. Eu ou\u00e7o e consolo: \u201cd\u00e1-se um jeito.\u201d Mas n\u00e3o h\u00e1 jeito, todos sabem. O jeito \u00e9 ver mesmo essa cidade crescer. E como cresce. (carta de 7 de julho)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>De fato, ao longo das cartas acompanhamos com detalhes o r\u00e1pido crescimento de Bras\u00edlia. Tr\u00eas semanas ap\u00f3s a chegada, Jos\u00e9 escreve:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Apenas est\u00e3o terminando as cal\u00e7adas que d\u00e3o para os apartamentos. J\u00e1 n\u00e3o piso tanta areia quanto na primeira semana. As tubula\u00e7\u00f5es de esgotos est\u00e3o sendo montadas em toda a superquadra. Prossegue a constru\u00e7\u00e3o na escola de Aninha, o reboco e amplia\u00e7\u00e3o do cinema. Est\u00e3o montando persianas na outra quadra, 306, do Iapc. Logo, dentro de um m\u00eas talvez cheguem por aqui. (carta de 26 de julho)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O apartamento cava no bloco K da superquadra 106, na Asa Sul, ao lado do Cine Bras\u00edlia, onde meu av\u00f4 contava ir regularmente. Na \u00e9poca, pela aus\u00eancia de pr\u00e9dios nas 200 e 400, ainda se via dos fundos a Esplanada dos Minist\u00e9rios e o Congresso Nacional, onde ele trabalhava. Minha tia, a Ana, conta hoje em dia que se lembra de esperar na janela, no final do dia, o carro azul de seu pai fazer o percurso de volta a casa enquanto ela observava-o. 63 anos depois, j\u00e1 n\u00e3o se v\u00ea o Eixo Monumental cortando a paisagem.<\/p>\n\n\n\n<p>E por falar em janelas, o drama das persianas, mencionado tamb\u00e9m nessa carta de 26 de julho, demoraria mais um tempo para ser resolvido. Quase 3 meses depois, em uma carta de 14 de outubro, Jos\u00e9 ainda reclamava dessa quest\u00e3o, assim como da aus\u00eancia das gavetas dos arm\u00e1rios, em meio a reflex\u00f5es sobre o futuro do pa\u00eds \u2013 e o seu pr\u00f3prio, o de sua fam\u00edlia \u2013 ap\u00f3s a vit\u00f3ria de J\u00e2nio Quadros e cr\u00edticas ao ent\u00e3o prefeito de Bras\u00edlia Israel Pinheiro.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Ent\u00e3o rezei sozinho, pensando em voc\u00ea, no que ainda teremos de viver, no futuro, embora n\u00e3o nos devamos tanto preocupar com o futuro. Enm, dependemos de tanta coisa! De um mundo inquieto, marchando para uma luta sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a. E, internamente, com a vit\u00f3ria do J\u00e2nio (espero que fa\u00e7a um bom governo), que ser\u00e1 de n\u00f3s, do Pa\u00eds, de Bras\u00edlia? Alguns observadores acham que isto aqui vai melhorar. O capital paulista vai entrar de rijo. Tamb\u00e9m cono nessa opini\u00e3o. N\u00e3o pelo que J\u00e2nio tenha dito: \u201cJuscelino construiu Bras\u00edlia; eu vou torn\u00e1-la habit\u00e1vel\u201d. Mas pela sequ\u00eancia natural dos acontecimentos, a busca de novos mercados, a interioriza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds. E Bras\u00edlia \u00e9 um ponto chave, o centro das decis\u00f5es governamentais. Est\u00e1 faltando um bom prefeito. O dr. Israel \u00e9 p\u00e9ssimo. Reina desordem no acabamento das obras iniciadas. O interior das superquadras, por exemplo, j\u00e1 podia estar mais adiantado. Em vez de come\u00e7arem as coisas e terminarem, n\u00e3o: pavimentaram parte de nossa quadra. Mas deixaram pela metade e o que est\u00e1 em fase de conclus\u00e3o, est\u00e1 se estragando. A gente \u00e9 inclinado a pensar em marmeladas, para se refazer o trabalho. O caso das persianas \u00e9 t\u00edpico. E tamb\u00e9m das gavetas dos arm\u00e1rios. A gente reclama, dizem que a verba foi aprovada, mas n\u00e3o sai nada de definitivo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m em outubro, no entanto, Jos\u00e9 come\u00e7a a demonstrar certa preocupa\u00e7\u00e3o com um outro futuro, o dos filhos: \u201cTenho pena do Kido e da Aninha: eles nunca ir\u00e3o sentir amor a terra nenhuma. Se viverem em Bras\u00edlia mais uns dez anos, n\u00e3o creio que tenham por isto aqui o mesmo encantamento do velho pelo seu nordeste de quatrocentos anos de subdesenvolvimento\u201d. O trecho parece uma resposta a outro que ele pr\u00f3prio publicou no Correio Braziliense no dia 6 de novembro, uma resenha do ensaio \u201cUma f\u00f3rmula para a civiliza\u00e7\u00e3o brasileira: Olinda completada por Olanda\u201d, de Gilberto Freyre, publicado em julho daquele ano na Revista Nordeste, em que meu av\u00f4 arma:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Porque falta a Bras\u00edlia a alma de uma cidade, apesar da beleza monumental de suas avenidas e da linha \u00e1tica de seus pal\u00e1cios que certos homens viajados, num confronto hist\u00f3rico, querem ver no Alvorada tra\u00e7os arquitet\u00f4nicos do pal\u00e1cio dos B\u00f3rgias? (\u2026) \u00c9 como arma com raz\u00e3o o sr. Gilberto Freyre: Olinda n\u00e3o socorreu Bras\u00edlia: Olinda participou, muito pouco, da constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. Pensaram nas Olandas \u2013 na influ\u00eancia europeia, nos h\u00e1bitos europeus, esqueceram que se constru\u00eda nos tr\u00f3picos e para o homem de civiliza\u00e7\u00e3o mais fecunda e aut\u00eantica dos tr\u00f3picos \u2013 o homem brasileiro. (\u2026) Bras\u00edlia se excede de luz e vidro no exterior: e de penumbra e subterr\u00e2neos no interior. Luz e sombra nunca tropicalmente bem dosados, mas num desequil\u00edbrio constante, apesar da leveza das formas, de sua beleza incompar\u00e1vel, do jogo realmente fascinante que o compasso e a r\u00e9gua, a linha reta e a linha curva deram \u00e0s constru\u00e7\u00f5es que est\u00e3o nascendo no planalto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Bras\u00edlia ainda sem alma brasileira, t\u00e3o necessitada da alma tradicional de Olinda.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Alguns meses depois, Kido \u201censaiava os primeiros passos no barro vermelho de uma superquadra da nova capital rec\u00e9m-inaugurada\u201d, como diz a minibio de seu livro de cr\u00f4nicas Com o c\u00e9u entre os dentes, de 2005, publicado quando ele tinha 46 anos e eu, nove. As cr\u00f4nicas, muitas delas publicadas tamb\u00e9m no Correio Braziliense, tratam de diferentes momentos daquelas mais de quatro d\u00e9cadas de exist\u00eancia de Bras\u00edlia, desde sua inf\u00e2ncia fugindo dos \u201cgraminhas\u201d, funcion\u00e1rios p\u00fablicos respons\u00e1veis por expulsar as crian\u00e7as da grama rec\u00e9m-plantada das quadras, at\u00e9 situa\u00e7\u00f5es da vida conjugal com minha m\u00e3e vividas meses antes, passando por momentos de sua adolesc\u00eancia e at\u00e9 mesmo proje\u00e7\u00f5es para a minha, que nem ele nem meu av\u00f4 viveram para ver (e, quem sabe, contar). Em uma das cr\u00f4nicas, a que d\u00e1 nome ao livro e que tamb\u00e9m foi o t\u00edtulo de uma pe\u00e7a de teatro escrita por Kido em seus 20 e poucos anos, o narrador pega a bicicleta de madrugada e pedala at\u00e9 o Lago Parano\u00e1 para ver o sol nascer:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>N\u00e3o sentia cansa\u00e7o quando parou pela primeira vez desde que deixara a 106 Sul \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3, na Ponte Costa e Silva, seduzido pela esperan\u00e7a de ver o sol nascer no Lago Parano\u00e1, o que jamais zera. J\u00e1 eram umas seis horas.<\/p>\n\n\n\n<p>O sol nasceu redondo e quente, afastando as nuvens e dourando as \u00e1guas do lago. Foi uma sensa\u00e7\u00e3o esquisita, um misto de plenitude e melancolia. Estava sozinho, n\u00e3o tinha com quem dividir aquele momento de \u00eaxtase. Era um misto paradoxal de pertencimento e desprendimento. Um sentimento amb\u00edguo de alegria e ang\u00fastia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quisera poder congelar aquele instante revelador pela eternidade. Quisera poder domar aquele sol vermelho e gordo nascendo e refletindo no lago. Quisera possuir aquele c\u00e9u multicor, t\u00ea-lo sob seu dom\u00ednio, sob sua posse poder crav\u00e1-lo entre os dentes. Pelo resto da sua exist\u00eancia.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Parece ser em algum ponto do \u201cmisto paradoxal de pertencimento e desprendimento\u201d que Bras\u00edlia se encontra para aqueles que cresceram com ela, ou que a viram crescer. E na esperan\u00e7a de ver o sol nascer \u2013 o mesmo que encantou meu av\u00f4 naquela primeira carta escrita dois dias ap\u00f3s sua chegada em Bras\u00edlia, que meu pai quase seguramente n\u00e3o leu \u2013 nas bordas do horizonte plano que rodeia a cidade, e deixar ali tamb\u00e9m uma marca vermelha como impress\u00e3o digital.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 7 de julho de 1960, Jos\u00e9 Augusto Nascimento Guerra foi aos Correios. Tinha nas m\u00e3os um punhado de folhas datilografadas que seguiriam viagem at\u00e9 Recife, a pouco mais de dois mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, onde encontrariam Rildacy, Ana e Kido, sua esposa e filhos pequenos. 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